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terça-feira, 17 de junho de 2014

Um fake no catálogo

Um experimento social que usa um perfil fake no Grindr com os seguintes ingredientes:

Nome: Atv
Headline: afim de um lance na calada com um brother
Sobre mim: Sou de fora, e estou sem local. Procuro passivos afeminados. Se não curte macho dominador e se não for afeminado, não chama. É meu fetiche.
Adicione uma foto de um cara branco, magro/malhado com 186 cm de altura e 87 kg. 

    Não é difícil concluir que este perfil falso é a unanimidade entre os usuários deste e outros aplicativos. Porém, está longe de mim julgar seus gostos (e de fato, soa uma delícia). Em uma hora de brincadeira o perfil falso recebeu algumas dezenas de mensagens (43 precisamente), muito ao contrário do meu modesto perfil verdadeiro. Desenvolvendo um pouco a conversa com os caras que "não são e nem curtem afeminados", alguns até topavam usar calcinha, e não se incomodavam em serem chamados de "putinhas" do macho dominador (olar ironia). Outros se mostravam indignados por eu curtir apenas afeminados, e julgavam meu gosto como "estranho". Me diverti buscando a mulher interior em cada um daqueles perfis preconceituosos, num processo de evangelização dos gays que tinham posições heteronormativas sobre eles próprios. 
      Essa atenção toda que meu fake recebeu me parece uma consequência do fenômeno de "catálogo". O catálogo acontece quando nunca se está satisfeito com as oportunidades que aparecem, pois uma pessoa mais bonita e mais perto de você pode surgir a qualquer momento. Quando o perfil é comum, sinto que há um descaso de ambas as partes, e que não há muito empenho em se criar interesse, pois ele é presumido nato quando uma das partes iniciou a conversa, mas ao mesmo tempo se contrasta com a própria inexistência. Então, depois de 5 linhas de conversa, descarte, e isso me deixa sem paciência. Talvez pelo fato de existir uma foto exposta antes de qualquer contato verbal, esses apps incentivam mais o catálogo do que o chat Uol, por exemplo.
    Da mesma forma, está longe de mim julgar pois faço catálogo também. Eu próprio tenho medo de ter idealizado o homem que quero como meu marido de uma forma que o torna inatingível, e medo disso me tornar indiferente aos homens possíveis. Chame de síndrome da Disney. Sei que para achar o meu marido terei que abrir mão do ideal, mas porra... como é difícil!
    Um dia eu me aquieto e largo essa vida profana. 
Ou não. Vendem-nos muito a ideia de que para ser feliz é preciso se casar e se aquietar um dia com uma pessoa, e que o cultivo de parceiros diferentes é ruim. Pra quem acompanhou How I Met Your Mother, saiba que eu odiei o final do Barney Stinson. Ele sugere que um dia até o mais pervertido homem se aquieta um dia, e que a felicidade só pode ser atingida por algum compromisso com outra pessoa (no caso dele, uma filha), e sugere que para ser um final feliz, ele não poderia continuar vivendo na perversão. Pra isso eu digo "não necessariamente". Barney se parecia comigo nesse ponto, e também pelo fato de ele ter um blog.
    De qualquer forma, ninguém garante que um ou outro estilo de vida vai te trazer mais satisfação do que o outro, pois há prós e contras em ambos os lados de promiscuidade e de recatamento, com todas as variações dos comportamentos entre esses dois pólos. 
    Porém, mesmo questionando a necessidade de aquietação, não posso deixar de sentir que poderia ser bom estar em mais um relacionamento estável e duradouro agora. Questionar a convenção de que relacionamentos fazem bem às pessoas me conforta por estar solteiro no momento.
Um grande abç,
N.B.

P.S.: Meu príncipe preferido é o Christof do filme "Frozen". Rústico e bruto na medida, com uma inocência que é doce, e levemente acima do peso. Qual o seu?
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