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domingo, 23 de fevereiro de 2014

utilidade pública

    Gosto muito das apresentações do TED. Dia desses vi um vídeo que abordava o mecanismo de amor e traição nos humanos, e gostei muito. Neste que indico, o amor como conhecemos hoje é abordado como constituído por três pilares, e o que achei mais interessante é o que nos ajuda a aturar o parceiro(a) por um determinado tempo, geralmente por um período que corresponde ao tempo de criação da prole até que esta já não seja totalmente dependente dos pais para sobreviver. Este pilar se relaciona com o comportamento monogâmico que existe em alguns primatas, que permanecem monogâmicos até que a cria esteja preparada para sobreviver sozinha, e ao mesmo tempo coloca em dúvida se é possível continuar com uma pessoa depois do intervalo de tempo quando esta ilusão que temos é desfeita, abrindo brecha para considerar o casamento para todo sempre como impraticável. Retomarei este assunto noutro texto.
    Em um momento, a palestrante relaciona a liberdade de ser que observamos nas últimas décadas com o reganho de poder e de liberdade sexual da mulher no cenário social.
Reganho porque, de acordo com a palestrante , e de acordo com historiadores (possivelmente), a mulher tinha a mesma importância econômica e, portanto, social, que homens durante a época que éramos nômades coletores. As tarefas eram divididas, ou podiam ser realizadas por ambos os sexos, e portanto não cabia ali uma hierarquização de qual sexo era o mais importante para o clã. (até ~10.000 a.c.)
    A partir do momento que as tribos humanas dominaram a agricultura e se tornaram sedentárias, as tarefas passaram a ser divididas de acordo com o sexo, porém a palestrante não menciona o critério. Eu chutaria que a maior força física do homem o dava vantagem na realização de tarefas agriculturais, o que deixava o provimento de comida a cargo do sexo masculino, e isso o colocava em uma posição superior à mulher que realizava qualquer outra atividade de suporte. Isso justificava a organização da sociedade em torno do homem e a subjugação da mulher pelas bases de tribos paternalistas e machistas. 
    Finalmente, a revolução industrial absorveu a mão de obra feminina, e a revolução tecnológica da qual somos contemporâneos consegue colocar a mulher em posições equivalentes ao homem em diversos setores da economia, e até em setores superiores. Essa equiparação de poderes econômicos, e o consequente reposicionamento da mulher na distribuição de poder da sociedade, permite que ela se coloque num patamar de exigir seus direitos sexuais assim como o homem, e desfazer a repressão que o paternalismo as impõe. 
    De carona com a libertação feminina, nós gays vamos no mesmo barco que rompe as bases paternalistas e machistas do mundo, e se temos maior liberdade de ser e de agir hoje, devemos muito às mulheres. 
Um grande abç,
N.B.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

a arte do tédio

    Algumas pessoas me perguntaram sobre o que eu achei daquele beijo gay que aconteceu na última novela. Sei lá, eu vi, eu comentei com amigos, eu torci para que ocorresse, mas sinceramente, aquilo foi entediante, foi pouco, foi broxante, foi "argh, que preguiça, meu deus". 
    Alguém aqui já assistiu àquele filme "Ninfomaníaca"? Eu assisti no começo do mês em um cinema alternativo de BH, chama-se Cine Belas Artes. Ele fica próximo à praça da liberdade, fora de shopping, e as salas são menores, mas não pecam (muito) em qualidade. Fui apresentado a este lugar por um amigo que já esteve por lá, e minhas impressões foram bastante positivas sobre o lugar. Ele é uma mistura de café e bar, e ainda possui exposições artísticas. Talvez por esse ar alternativo, o que senti era que a grande maioria do público local era composta de pessoas de look alternativo (não necessariamente gays, mas com um número elevado de gays) e de casais de mais idade. 
    Na sala, um cara de dreads sentou-se na minha frente, e sua cabeleira, cultivada com bastante adubo por muitos anos, ficou a tampar minha visão, de modo a fazer com que eu tivesse que inclinar o pescoço levemente para ver a tela sem interferências. 
Apesar da pólo e do cara de dreads, a experiência foi ótima, e o filme, uma obra prima. Para quem ainda não ouviu falar, ou para quem não viu, procure ver. Se trata de uma abordagem poética e com toques científicos muito bem embasados sobre o vício em sexo. 
    Infelizmente, e ironicamente no cinema hipster, eu assisti à versão censurada. Esta versão corta a exibição de pênis duros inteiros, mas mesmo assim existe muita fartura de falos ao longo do filme. Não se deixem levar pelo julgamento de ser mais um filme pornô com uma história fraca, pois não é. A poesia com que o filme trata a presença e a importância do sexo na vida de uma pessoa é sem igual, mesmo sendo pela pele de uma mulher ninfomaníaca. 
    Muitos tabus sexuais são explorados ali, e uma das coisas mais interessantes que achei é como alguns desses tabus, e a culpa que a personagem sente por eles, são aliviados por observações de fundo científico e impessoal de uma outra personagem.
    Esse filme contrasta brilhantemente com a audiência que o beijinho inocente da novela causou. Enquanto o beijo foi assunto para essa gente castrada sexualmente e culturalmente, existe arte de tamanho inimaginável que explora tabus muito mais profundamente, de forma criativa e sem cliché, e sem medo de exibir o que realmente pode te fazer pensar por perspectivas novas e sobre novos assuntos. Imagino que esse povo da novela, que fica tão impressionado com uma cena conservadora e entediante, não sabe o que está perdendo.
    Deixe a população com as Helenas de Manoel Carlos, e com essa coisa entediante que corrói o cérebro sem apresentar nunca nada de novo ou ousado. O mundo nos oferece mais, e temos o privilégio de poder desfrutar de tudo o que ele nos dá (exceto drogas, gente, drogas não são de deus. Bom, algumas são).
Um grande abç, 
N.B.
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(Legendas disponíveis)



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