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domingo, 7 de setembro de 2014

Num outro contexto

E aí, garotões como estão?

    Preciso compartilhar com vocês algumas mudanças que ocorreram e que tornam a minha existência como autor anônimo uma fraude, pois quem vos fala já não é mais um estudante de engenharia e nem mora em Belo Horizonte. Talvez a dificuldade que eu tenho tido para escrever tem sua explicação exatamente na morte do alter-ego.
    Pois é, eu me formei e passei por aquela fase desesperadora de recém graduado quando tudo o que passa na cabeça é saber o que fazer a partir deste ponto. Uma série de eventos acabaram me levando para fora do país, e há duas semanas estou vivendo em Nova York, onde ficarei pelos próximos dois anos para um mestrado. As impressões iniciais são muito boas, e não poderia ser diferente. Ainda é tudo novo para mim, e estou vivendo a fase de turismo enquanto ainda não começo a rotina, mas pretendo me manter otimista.
    Confesso, e só confesso isso para os muito íntimos, que essa não era nem de perto a minha prioridade, mas as circunstâncias me trouxeram até aqui. Eu amei o tempo que passei em BH, e se eu tivesse a oportunidade de seguir a minha carreira por lá eu continuaria por bastante tempo, e com o maior prazer! Infelizmente não fui bem sucedido com os empregos que eu me candidatei, mas assim é a vida.
    Ainda não sei que posição tomar quanto ao blog, se criarei um novo, ou se apenas mudarei o título deste para "Armário em NY". Mas sabe que não faz sentido? Quero passar com um trator em cima de armários e qualquer tipo de confinamento.
    Antes de sair do Brasil eu tive vários momentos de insanidade quando vozes na minha cabeça gritavam "eu sou gay eu sou gay" todas as vezes que eu conversava com minha mãe. Eu perdia a concentração no que ela estava falando, tentando achar uma entrada para que eu finalmente pudesse dizer a ela sobre mim. Eu queria contar, e tive isso como uma meta inadiável para fazer antes da data da minha viagem. Por alguns momentos também quis contar em uma situação em que minha mãe, irmã e uma tia, a quem tenho muito carinho, estivessem reunidas, pois assim eu terminaria de uma vez com o drama para as mulheres mais importantes da minha vida. Acabou que não tive a oportunidade/coragem, e fui-me sem contar, porque eu gosto de fugir dos meus problemas ao invés de encará-los.
    Não sei se o fato de eu ter vindo para tão longe também pode ser uma fuga, mas eu cansei de armário, e estar longe é um ótimo motivo para não ir ao casamento do meu primo, pois isso exigiria muito de mim. Ainda não contei para a minha família, mas aqui quero começar de novo, pela segunda vez. Sem mentiras, sem pegar mulher na balada pro amigo hétero ver, sem hesitar em dizer que eu beijo rapazes.
    Suspeito que a minha presença no blog vai ficar um pouco escassa daqui pra frente, mas se eu tiver algum pensamento que valha a pena ser compartilhado, eu voltarei para compartilhar com vocês. Talvez também esteja na hora de sair um pouco do mundo virtual e mudar o mundo com o meu próprio rosto, ali fora!
    Meus queridos amigos, muito queridos mesmo, obrigado pelos 3 anos e meio de companhia e o crescimento que vocês me proporcionaram. Este blog, através de vocês, mudou a minha vida em maneiras que eu nem consigo imaginar como ela seria hoje se não fosse como é.
    Um grande prazer e um grande abraço,

Henrique.

domingo, 27 de julho de 2014

Texto avulso

    A cabeça anda vazia e falta motivação para entrar em debates. 
    Sabe aquela sensação de ter a sua verdade e dane-se a dos outros? Um dia eles chegam lá... 
    Uma sensação de já ter entendido o mundo, mesmo que muitas dessas verdades sejam representadas pela paz que a aceitação da inexistência de que uma resposta traz. Poucos pensamentos me passam nos dias recentes, mas talvez esse estado anestesiado seja também uma forma de fugir dos fatos que me são apresentados. 
    Uma das coisas que tem me incomodado é casamento de um primo (3o grau já não é parente) que significa muito pra mim. Ele é um ano mais novo que eu e sempre fomos muito ligados desde o início da infância pelo fato de nossas mães também serem próximas. Por termos crescido juntos, compartilhamos momentos típicos de meninos, como a fase fálica da infância representada pelas brincadeiras de médico, e o descobrimento da masturbação e do pornô na adolescência. Por sermos primos, meninos e amigos, tínhamos o privilégio de tomar banho juntos na infância, ou dormir na casa um do outro nas férias e em alguns finais de semana para jogar video game até tarde. 
    A última vez que isso aconteceu foi aos meus recém feitos 18 anos no aniversário da minha mãe, e ele dormiu na minha casa para jogarmos um jogo de tiro e terror no computador, a saber Doom 3. Lembro que, pelo menos da minha parte, não havia segundas intenções em recebe-lo no meu quarto, porém depois de terminado o jogo, contávamos com uma garrafa de rum e um pornô hétero no pc.
    Naquela época eu já havia tido duas experiências casuais com homens estranhos, e já tinha muita noção das minhas preferências sexuais. Apesar disso, a iniciativa para que as coisas se desenvolvessem eram do meu primo, e a minha posição era um tanto sempre com um pé atras, uma vez que ele tinha todos os traços de ser hétero. Naquele momento, mão amiga no pau do outro parecia um tanto básico. Estávamos bastante desinibidos pela ação do álcool, e de repente eu fui surpreendido por uma pergunta.
_Você tem coragem de chupar?
Pensei "claro", mas não queria deixar transparecer a obviedade. Apesar da pouca idade, o rapaz tinha um pau bem maior que o meu e era muito bonito. Eu já observava com muita água na boca pelo canto do olho, até que respondi:
_Só se você for primeiro.
Quis testá-lo, e ele foi primeiro, prontamente seguido por mim. 
Depois de um tempo nessa brincadeira, ele interveio de novo com outra pergunta.
_Você tem coragem de sentar?
Eu pensei em fazer a mesma jogada de intimá-lo a fazer primeiro, quando fui novamente surpreendido quando ele disse:
_Assim não ué, eu chupei primeiro, agora você vai primeiro.
    Sem resistir muito eu disse "justo", e lá fui. Nossa foda era tão bizarra e moleque que estipulamos regras para a brincadeira. Cada um teria direito a 20 bombadas, e depois trocava. Foi a única vez em que fiz sexo sem proteção, e além disso usamos óleo de cozinha como lubrificante por falta de experiência. Meus pais estavam dormindo no quarto ao lado.
    Um ano depois uma brincadeira desse tipo se repetiu na casa dele, mas bem de leve com uma mão amiga. Depois disso passamos a nos distanciar, uma vez que eu visitava minha cidade natal cada vez menos, e nos desencontrávamos em eventos de família. Ele seguiu uma vida devassa até seus 21 anos, e sempre foi do tipo hétero comedor por ser muito bonito e típico macho alfa, e sempre teve muita mulheres a sua disposição. Seus pais são católicos ativos em eventos de igreja e o pai sempre foi muito rígido com ele, psicologicamente e fisicamente, algumas vezes até demais eu diria. 
    Recentemente, meu primo anunciou que vai se casar neste ano ainda. Pelo que ele significou e pelas experiências que tivemos, esse anúncio me causou profunda inquietação. É difícil expressar o que sinto, mas se aproxima bastante de um sentimento de perda, com uma parte de ciúme da noiva e inveja dele. Adicione a isto a constante comparação que faço de mim mesmo com as pessoas ao meu redor e suas posições na vida. Ele que é mais novo que eu e que ainda teve experiências homossexuais comigo, está casando, e eu não. Não que eu tenha a pretensão de casar com uma mulher, mas é a sensação de ele estar seguindo com a vida e eu não. 
    Acho interessante também como isso é capaz de me afetar tanto, e já devo me preparar para quando ele começar a se reproduzir. Sei que será um novo baque.
    É um sentimento muito estranho. Eu quis compartilhar e dizer "Olá, estou vivo", depois de mais de mês sem postar.
Enfim.
Um grande abç,
N.B.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Um fake no catálogo

Um experimento social que usa um perfil fake no Grindr com os seguintes ingredientes:

Nome: Atv
Headline: afim de um lance na calada com um brother
Sobre mim: Sou de fora, e estou sem local. Procuro passivos afeminados. Se não curte macho dominador e se não for afeminado, não chama. É meu fetiche.
Adicione uma foto de um cara branco, magro/malhado com 186 cm de altura e 87 kg. 

    Não é difícil concluir que este perfil falso é a unanimidade entre os usuários deste e outros aplicativos. Porém, está longe de mim julgar seus gostos (e de fato, soa uma delícia). Em uma hora de brincadeira o perfil falso recebeu algumas dezenas de mensagens (43 precisamente), muito ao contrário do meu modesto perfil verdadeiro. Desenvolvendo um pouco a conversa com os caras que "não são e nem curtem afeminados", alguns até topavam usar calcinha, e não se incomodavam em serem chamados de "putinhas" do macho dominador (olar ironia). Outros se mostravam indignados por eu curtir apenas afeminados, e julgavam meu gosto como "estranho". Me diverti buscando a mulher interior em cada um daqueles perfis preconceituosos, num processo de evangelização dos gays que tinham posições heteronormativas sobre eles próprios. 
      Essa atenção toda que meu fake recebeu me parece uma consequência do fenômeno de "catálogo". O catálogo acontece quando nunca se está satisfeito com as oportunidades que aparecem, pois uma pessoa mais bonita e mais perto de você pode surgir a qualquer momento. Quando o perfil é comum, sinto que há um descaso de ambas as partes, e que não há muito empenho em se criar interesse, pois ele é presumido nato quando uma das partes iniciou a conversa, mas ao mesmo tempo se contrasta com a própria inexistência. Então, depois de 5 linhas de conversa, descarte, e isso me deixa sem paciência. Talvez pelo fato de existir uma foto exposta antes de qualquer contato verbal, esses apps incentivam mais o catálogo do que o chat Uol, por exemplo.
    Da mesma forma, está longe de mim julgar pois faço catálogo também. Eu próprio tenho medo de ter idealizado o homem que quero como meu marido de uma forma que o torna inatingível, e medo disso me tornar indiferente aos homens possíveis. Chame de síndrome da Disney. Sei que para achar o meu marido terei que abrir mão do ideal, mas porra... como é difícil!
    Um dia eu me aquieto e largo essa vida profana. 
Ou não. Vendem-nos muito a ideia de que para ser feliz é preciso se casar e se aquietar um dia com uma pessoa, e que o cultivo de parceiros diferentes é ruim. Pra quem acompanhou How I Met Your Mother, saiba que eu odiei o final do Barney Stinson. Ele sugere que um dia até o mais pervertido homem se aquieta um dia, e que a felicidade só pode ser atingida por algum compromisso com outra pessoa (no caso dele, uma filha), e sugere que para ser um final feliz, ele não poderia continuar vivendo na perversão. Pra isso eu digo "não necessariamente". Barney se parecia comigo nesse ponto, e também pelo fato de ele ter um blog.
    De qualquer forma, ninguém garante que um ou outro estilo de vida vai te trazer mais satisfação do que o outro, pois há prós e contras em ambos os lados de promiscuidade e de recatamento, com todas as variações dos comportamentos entre esses dois pólos. 
    Porém, mesmo questionando a necessidade de aquietação, não posso deixar de sentir que poderia ser bom estar em mais um relacionamento estável e duradouro agora. Questionar a convenção de que relacionamentos fazem bem às pessoas me conforta por estar solteiro no momento.
Um grande abç,
N.B.

P.S.: Meu príncipe preferido é o Christof do filme "Frozen". Rústico e bruto na medida, com uma inocência que é doce, e levemente acima do peso. Qual o seu?

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O homem homem¹ está morto

   Em aberto: a imagem abaixo mostra um casal heterossexual ou não? 

    Acho que essa imagem resume muito bem meus motivos para eu não buscar um relacionamento heterossexual(2). Este vem com papeis muito bem definidos e muito rígidos sobre ser homem e mulher. No meu caso, eu não suporto ser esse homem tradicional que falam que não chora, que não demonstra emoções, que não faz as tarefas em casa que são consideradas femininas, ou que as tarefas consideradas masculinas devem ser feitas por ele. Discordo do meu tio quando ele diz que meu priminho de 8 anos é mais homem que ele por entrar na piscina neste frio, pois bravura não é uma virtude exclusiva do homem.
    Me incomoda ter meu papel na vida e as coisas que me são permitidas fazer ditados por alguém, porque eu sou homem a minha maneira e nada muda isso. Sinto que um relacionamento gay te dá mais liberdade nesses aspectos, tanto dentro quanto fora do quarto. Por exemplo, será que existe alguma mulher que se interessa em lamber o butico do marido, sem o julgar? Ou ainda, será que existe algum homem num relacionamento com uma mulher que não sentiria sua masculinidade ameaçada caso ela trouxesse consolos para a cama? (3)
    Felizmente, as barreiras do papel de homem e de mulher estão ruindo em duas frentes principais: a primeira é a libertação sexual da mulher que vem reclamando seu próprio corpo da propriedade masculina em seus movimentos feministas, e a segunda com os movimentos LGBT que também libertam o homem da opressão de ter a heterossexualidade presumida e compulsória. Algum dia, casais como o ilustrado na foto não serão incomuns e nem chocarão. Só tenho dúvidas se presenciaremos isso, em vida ou juventude. 
    Acho que é isso que me faz gay, hoje, e me mantem motivado a continuar gay. Enquanto a plena liberdade sexual não chegar, eu prefiro ser gay do que me submeter à definição restrita e sufocante do que significa ser homem. 

Notas:
1 - Homem homem é uma campanha publicitária bastante apelativa de um desodorante que divulga a imagem de uma "espécie em extinção", bruta e musculosa, e que tem a missão de "trazer de volta o orgulho de ser e cheirar como homem", como se existisse cheiro de homem. Vídeo aqui.
2 - Não quero necessariamente ser fodido por uma mulher com um strap-on.
3 - Mulheres são mais vítimas desses papeis do que homens.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Extremos

      Uma coisa engraçada é se deparar com extremos.
    Um dia observei (o óbvio) que alguns homossexuais passam por um período de desembestamento sexual, fazendo sexo sem muito critério com o maior número de pessoas e com a maior frequência possíveis, como se isso fosse uma forma de tirar o atraso do que não fizeram durante seus anos mais jovens. Existem também, claro, os moderados, que preferem um relacionamento romântico, estável e duradouro. Por fim, os extremistas do outro lado que não se relacionam e permanecem virgens até seus 30, 40 anos e por aí vai...
    Esse último grupo pode ser dividido entre os que o fazem assim por escolha, e os que são vítimas das circunstâncias. Mas que circunstâncias?
Meu exemplo: quando eu era adolescente, houve uma época entre a 6a da 8a série (13 a 15 anos) que beijar na boca era uma febre entre as 'crianças' da escola. Ser BV naquele contexto sentia-se tão desmoralizante quanto ser gay hoje. Havia uma garota na minha sala que era mais próxima de mim que as outras, e os meninos da sala nos empurravam para que "ficássemos". Por coincidência morávamos perto, então era frequente que caminhássemos juntos depois da aula. Num dia, enquanto nos abraçávamos para a despedida, aconteceu meu primeiro beijo, que foi um tanto estranho e foi tópico dos meus pensamentos dos minutos antes de dormir, embora tenha sido apenas um selinho. Para afastar o rótulo de BV de mim, espalhei que fiquei com a menina, pois tecnicamente eu havia sim a beijado.
    Isso sustentou minha integridade por um tempo, mas como eu nunca havia realmente beijado, eu passei a me sentir inseguro demais para fazer qualquer movimento que culminasse em uma menina querer ficar comigo, e logo perceber que eu não sabia beijar ou que eu beijava mal. Essa insegurança me prendeu, passei a evitar festas com os amigos, ou qualquer outra reunião social que pudesse ameaçar o meu conforto de mentiras. Mesmo depois de ter tido relações sexuais com homens, eu só fui beijar mesmo aos 21 anos de idade.
    Hoje ainda eu tenho mais facilidade de fazer sexo do que beijar um cara. Há vezes, e frequentes vezes, em que faço sexo sem beijos, pois sinto que preciso de uma conexão a mais para isso. Acho a boca mais íntima que meu pau, ou o de alguém, então quando eu me encontro com alguém novo dos apps de pegação, me reservo o direito de não beijar.
    Esse é (um dos) meu(s) trauma(s) de infância.
    Imagino que deva acontecer uma trava desse tipo com alguém que permanece virgem até seus muitos anos, como se fosse uma bola de neve. A insegurança de não ter tido relações nos anos mais jovens pode fazer a pessoa passar a evitar se colocar nessas situações que podem expô-la à vergonha de alguém descobrir a sua falta de experiência. A pessoa acaba criando em sua cabeça que sexo é complicado demais para ela nesse ponto da vida, assim como eu pensava que beijos seriam para mim.
    Talvez isso seja mais frequente entre gays, pois um homossexual médio pode sofrer algum atraso da sua 1a relação sexual. Esse atraso se deve a problemas como enfrentar períodos de descobrimento, aceitação e finalmente da procura de um parceiro ajustado. 
    Mesmo que isso não nos acrescente muito, não deixa de ser interessante saber, mas precisaríamos de uma pesquisa para dizer se o homem que permanece virgem até muitos anos é mais provável de ser homossexual, ou não. Tento pensar nos meus amigos e amigas héteros, e não acho que eu tenho algum que ainda seja virgem. Se eu tiver algum, será por escolha de construir um relacionamento estável antes, e não pelas circunstâncias, e isso aplicado mais comumente às mulheres.
    É só uma constatação, porém. Não digo que o fato de ficar virgem até muitos anos é algo que deveria ser corrigido, mas se for algum caso de superestimação do sexo, um trabalho de desmistificação do sexo pode ser feito.
    Para ter uma noção de como isso funciona nos nossos meios, convido vocês a deixarem depoimentos falando de vocês são ou têm amigos, hétero ou gays, que sejam virgens, e tentar explicar o porquê deles serem. Vale lembrar que isso não é necessariamente uma coisa ruim, mas é uma experiência a que todos deveriam ter direito de desfrutar.
Um grande abç.
N.B.
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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Espaços, gêneros e eufemismos

    A vida em uma república tem suas vantagens em relação a morar com a família. A parte que mais gosto é a premissa do espaço inviolável: uma porta nunca é aberta sem a explícita permissão do dono do quarto, e isso não causa estranheza, enquanto na casa dos meus pais eu nunca tive o costume de fechar a porta do meu quarto, e esse simples ato agora causa estranheza para eles. Imagino que meus pais devam sentir isto como um ato de isolamento, mas é apenas a minha necessidade de ter e usar um espaço onde posso me concentrar em coisas minhas sem ter a preocupação de ser interrompido quando alguém se sente no direito de entrar no quarto sem bater. Preciso de um lugar onde eu sou a autoridade. Nessa brincadeira, minha irmã já me pegou trocando de roupas, o que me deixa extremamente desconfortável quando se trata de família, apesar da insistência de minha mãe de que é bobeira. 
Em um dos momentos em que me senti sufocado, despejei meu discurso pré-preparado sobre o direito a ter meu espaço inviolável, e que eles deveriam esperar minha permissão para entrar no quarto, mesmo depois de bater. Percebi que essa ideia de privacidade e respeito de espaços era inexistente na minha família, e que o meu discurso fez parecer que faço algo de errado dentro do quarto. Pela sensibilidade ao assunto que minha mãe demonstrou, acho que ela considerou que uso drogas, ou que vejo pornografia, ou que me masturbo o tempo todo. Mas eu divago.
    Em BH, eu moro numa república com mais três amigos: dois dos quais conheci em BH mesmo, e um que já conheço desde meus tempos de ensino médio, há 9 anos. Este amigo mais antigo, em especial, é um dos mais próximos que cultivo por tanto tempo, tanto pelas circunstâncias, quanto pela qualidade da amizade. Sempre tive uma desconfiança de que ele também é gay, por uma série de motivos. Uma desconfiança que eu seria capaz de apostar todo o meu dinheiro em afirmar que sim: ele é. 
    Muito recentemente, ele me ligou dizendo que precisava conversar, e que pelo teor da conversa, seria preferível que fosse em pessoa. Durante nossa conversa, ele discorreu sobre algo que o causava um sofrimento profundo, o tirava a concentração e eu seria a segunda pessoa a saber. 
    Analisando este discurso, logo comecei a deduzir o que parecia óbvio, mas deixei-o falar me fazendo de desconhecedor dos fatos.
Ele_ Então, NB... você quer adivinhar do que se trata?
Eu_ Prefiro não...
Ele_Ah, tenta! É engraçado ver as respostas! (imagino que ele fez a outra pessoa adivinhar também)
Eu_ Ah, não sei... Você tá triste porque não consegue bater meu recorde no Flappy Bird? (Eu estava fazendo rodeios mesmo, pois não queria falar o que já estava óbvio)
Ele_ Deixa de bobeira, menino. Outra chance, vai!
Eu_ Não, pode ser engraçado pra você mas não é pra mim. Fala de uma vez.
E sem mais rodeios, ele falou:
_Então, NB, é porque eu estou gostando de um cara que mora com a gente...
    Eu estava preparado para fingir uma certa surpresa quando ele me dissesse o que eu esperava ouvir, mas preciso admitir que aquilo me pegou desprevenido e eu não precisei fingir. Comecei a rir descontroladamente, fiquei sem reação, e senti que ali uma etapa foi pulada. Pensei comigo mesmo que ele deveria me contar que gosta de rapazes antes de dizer que gosta de um dos nossos colegas de apartamento, e percebi que o sofrimento que ele vinha sentindo não era sobre uma questão de identidade sexual, e sim o sofrimento de um amor platônico. 
    Depois de tomar um tempo para me recompor e formular algumas frases, perguntei se ele achava se a paixão era realizável, sendo bem polido e contido, já que esta era a primeira vez que conversávamos sobre romance em quase uma década.
Ele_ Como assim?
Eu_ Se ele é gay também...
Ele_ Já conversei com ele sobre algumas coisas desse tipo, e tenho certeza que ele, assim como eu, também 'não se importa com gênero'.
    E essa expressão me chamou a atenção. O meu primeiro pensamento sobre a expressão que ele usara para se referir a ele e a sua paixonite era de que ele ainda não estava preparado para se afirmar como um homem gay, e por isto procurou um eufemismo (não se importa com gênero) para caracterizar a si e o nosso colega de apartamento. 
    Naquele momento, naqueles microssegundos que se passaram na minha cabeça entre o término da fala dele e o começo da minha, debati comigo mesmo se eu daria ênfase naquela expressão, criando um discurso de aceitação para ele se afirmar como gay e o incentivaria a deixar eufemismos de lado, pois quanto mais cedo uma pessoa abraça o que se é, mais chances ela tem de parar o sofrimento. 
    Acabei deixando-o exercer seu direito de se definir como quisesse, para depois perceber que fiz a escolha correta. Falei apenas o básico sobre ajudar no que for preciso, e que ele precisa conhecer mais pessoas, abrir possibilidades e manter a mente ocupada para não ficar pensando no nosso colega o tempo todo, e esqueci o eufemismo por um tempo.
    Alguns dias depois, porém, aquilo me voltou à cabeça. Passei um tempo refletindo sobre o motivo que ele se definiu como uma pessoa 'que não se importa com gênero', já que ele parecia muito bem resolvido quanto àquele assunto.
    Apesar da minha desconfiança de que ele estava se sentindo inseguro para se afirmar gay, percebi que a forma que ele havia se definido era muito mais sensata do que a que eu estava disposto a acusá-lo de ser, e acusá-lo de negar. Esqueci de considerar que ele poderia estar sendo honesto comigo e consigo mesmo ao não se definir como gay. Ao se definir como uma pessoa que não se importa com gênero, ele transcendeu a sua prioridade para além do corpo. Ele quer se apaixonar pela pessoa, pelo que ela representa para ele. Se definir como gay é fechar a possibilidade de isso acontecer com uma mulher, e fechar possibilidades geralmente é uma má escolha. (Nessa mesma linha, se afirmar gay seria uma forma de machismo, no sentido segregacionista, e isto seria paradoxal... mas eu divago de novo.)
    Um exercício de reflexão: se você encontrasse o amor da sua vida, será que você deixaria de se apaixonar se ele fosse uma mulher? Será que o corpo e gênero devem ser a prioridade para dizer quem será a pessoa com quem passaremos nossos melhores momentos?
    Aquilo, que me pareceu um eufemismo usado para se sentir mais confortável na conversa, passou a me parecer a melhor definição de sexualidade que já tive a oportunidade de conhecer.
Tão adequada, tão direta, e tão honesta. 
"Eu não me importo com gênero. Eu me importo com pessoas."
Um grande abç,
NB.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Histórias particulares 01

    Vez ou outra nos sentimos perdidos na vida, sozinhos, com dificuldades de entender o mundo e de fazer o mundo nos entender. Uma ferramenta importantíssima no exercício de sair do poço de lamentação e angústia profunda que muitos homossexuais se colocam é saber que existem outras pessoas que passam exatamente pelos mesmos problemas que nós.
    Eu tenho o privilégio de receber inúmeras histórias pelo email de contato, e isto me abre a cabeça aos problemas alheios e me ajuda a ter um sentimento melhor sobre o que significa ser um homossexual reprimido no Brasil.
    Com a permissão do remetente, compartilharei uma destas histórias e, desta forma, inaugurarei uma seção de publicação de diferentes histórias que podem ser bastante proveitosas, tanto para quem escreve e quanto para quem as lê. Se você tiver interesse em ter sua história publicada, envie-a para o meu email  =) 
    Neste texto específico, o autor deixou-se consumir por um medo exagerado que o levou a ter pensamentos e comportamento auto-destrutivos. O desenrolar da história contrasta este medo que havia criado um monstro em sua cabeça com a leveza das consequências que ele dificilmente cogitara. 
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Bom dia/tarde/noite, senhor N.B.

Bem, como eu disse no outro e-mail – 500 anos atrás -, faz tempo que quero te mandar um falando sobre... Ah, sobre mim (você disse que gosta, então aguenta) kkkkkkkkkkkkkkk

Ficou enorme, desculpe...

    Sou o Matteo (nome fictício), moro no Velho Oeste Paulista (tem muita briga por terra aqui, o MST é bem ativo nessa região, e existem pistoleiros e toda aquela raça de latifundiários milionários e ladrões).
    
    Nasci na região metropolitana de São Paulo, mas meus pais vieram pro interior quando eu tinha só 2 anos, então me sinto como se tivesse nascido aqui mesmo. A cidade tem muitos velhos e estudantes (3 universidades e 1 faculdade); nas férias vira um paraíso da terceira idade, porque todos os estudantes voltam pra casa – é insuportável!
    Tenho 3 irmãs, uma mais velha. Não tenho irmãos, mas sempre senti falta de um irmão mais novo, a quem eu pudesse proteger, dar conselhos, ensinar coisas. Acho que é por isso que eu gosto de caras mais novos... Vai saber...
    Minha descoberta não foi assim rápida. Ao contrário da maioria dos meus colegas da escola, sexo só se tornou interessante depois dos 15 anos. Nessa altura eu já era excluído da maioria dos "ciclos hétero" da escola, e meus primos mais velhos já namoravam (até uns mais novos, confesso). Foi nessa altura que os bíceps começaram a parecem interessantes. Fiquei com medo logo de cara. O universo gay não era uma incógnita completa pra mim, havia muitos garotos assumidos pela escola, e o meu padrinho de batismo é gay; ainda assim, me assustei. Precisava desesperadamente me esconder. Foi nessa época que conheci Ana, minha melhor amiga desde então, e a primeira pra quem contei sobre a minha condição.
    Com 16 anos me matriculei num curso do SENAI-SP, porque já estava grandinho e meu pai queria que eu arrumasse um emprego, e eu precisava conhecer mais amigos homens pra aumentar o disfarce e, como só havia duas meninas matriculadas, pensei que seria perfeito. Mas eu odiei a ideia logo que entrei no curso. Não me adaptei a uma sala com 20 homofóbicos, uma garota e um único cara legal. Apesar disso, não quis dar o braço a torcer.
    Eu me sentia desesperado, não entendia porque aquilo estava acontecendo “logo comigo”, e comecei a me sentir culpado. Tratei logo de inventar “antigas namoradas” como disfarce. Por um lado, isso foi bom, porque eu podia conversar sobre sexo com as pessoas sem grandes constrangimentos, e eu li bastante sobre o assunto na época – adolescentes só pensam nisso (que horror/ delícia). O problema é que, como qualquer mentira, começou a fugir do controle.
    Na época, Ana estava em um relacionamento semi-secreto com uma garota (ela não é lésbica, foi coisa de adolescente mesmo), e eu via como ela era massacrada pelos comentários maldosos e até agressivos. Me escondia cada vez mais num mar de mentiras, sem conseguir emergir um pouquinho pra tentar uma vida mais feliz, por puro medo.
    Com o passar dos meses, alguns alunos do SENAI começaram a me perseguir por não ter namorada (sabe como é, né, ter namorada nesse país é dever constitucional), e a levantar suspeitas e insinuações. Eu já não aguentava a pressão em casa, na escola, no SENAI, na rua... Comecei a pensar em suicídio. Mas eu era fraco até pra isso. Me sentia horrível, abjeto, culpado. Meu pai começou a me pressionar, por que eu não aparecia com meninas em casa e minha irmã mais velha colecionava alianças. NB... eu realmente cheguei a tentar me enforcar uma vez, com uma corda numa edícula vazia no fundo de casa, mas fui fraco – ou forte – demais pra prosseguir... Contei pra Ana, aos prantos, o que eu havia tentado fazer, e ela tratou de me tirar essas idéias da cabeça (ela foi um anjo, sem contar que já havia passado pela experiência homo afetiva, além de ter um tio gay e uma tia lésbica, ou seja, vasta experiência no nosso mundo).
    Em novembro de 2008, voltava para casa de bicicleta, pensando em todos esses problemas, me martirizando com as dores do mundo. Chegando a um cruzamento de ruas no final de uma ladeira, simplesmente larguei os freios. Eu queria morrer, e simplesmente me entreguei. Um carro que cruzava a rua me acertou em cheio mas, como o motorista estava freando por precaução, apenas caí sobre o capô e rolei pra rua; me ralei e bati alguns ossos, mas nada de grave. Até hoje as pessoas acreditam na minha versão de que os freios falharam, e eu não contei a verdade nem pra Ana.
    Depois da formatura na escola, eu não sabia que rumo tomar. A ideia de suicídio tinha ficado meio esquecida, e eu queria fugir de casa, pegar a estrada e cair no mundo. Ana me salvou de novo e me convenceu a entrar pra Universidade – temos que garantir o nosso futuro, não é? -. Acabei conhecendo alguns gays assumidos e mais maduros. Eu ainda continuava escondido, mas pude notar que o preconceito agora era bem menor, e já conseguia conviver comigo mesmo. Encontrei seu blog no primeiro ano de faculdade, e foi uma luz na minha vida.
    Com 21 anos beijei um cara pela primeira vez – eu já havia experimentado com garotas na adolescência -, no Diretório Acadêmico, numa salinha escondida. Foi incrível, a confirmação que eu ainda esperava – esperava por quê? Estava na cara!
    Eu janeiro de 2013, meu pai me chamou pra conversar no quarto, e me mostrou alguns arquivos no PC que eu poderia jurar diante do fantasma de Freddie Mercury que havia excluído – sim, meu caro, ele fuçou e achou “aqueles arquivos”. Na hora do desespero, inventei a história mais fajuta do mundo. A abordagem dele foi toda errada, me colocou contra a parede e eu me senti acuado, sem saber o que fazer, só querendo fugir dali correndo e me atirar numa vala qualquer...
    A família dele sempre foi muito tradicional, meio militarizada, e mesmo demonstrações de carinho entre pai e filho eram mal vistas – eu nunca vi meu pai abraçando meu avô -, e esse contexto é que me deixou mais desesperado. Já me vi sendo escorraçado, espancado, posto pra fora de casa a murros e pontapés com a roupa do corpo, tendo de viver na rua. Imaginei minha família se desfazendo em brigas por minha causa, meu pai sendo preso por agressão, minha mãe hospitalizada e minhas irmãs mais novas sem casa e sem pais. Foi o caos, não sei como não tive um infarto na hora.
    Desesperado, corri pro meu anjo da guarda, Ana, pedindo socorro. Ela me deu o melhor dos conselhos: o melhor caminho é o da verdade. Em casa, chamei minha mãe num canto – a casa estava cheia de parentes, tios e primos – e tentei contar tudo pra ela, que já sabia a versão do meu pai. Foi a coisa mais difícil que já fiz, NB.
    Mesmo sabendo que ela já sabia, tive dificuldade pra falar: me faltava ar, a boca não articulava, o som não saía; o coração estava acelerado como o de um cão, a visão turva; tudo girava e comecei a perder o equilíbrio, mesmo estando sentado; quase sucumbi naquela hora; senti que estava sendo desfeito. Eu realmente não desejo essa sensação pra ninguém. Com a ajuda dela e muita dificuldade, acabei conseguindo contar e desabei em choro, no ápice das emoções conflitantes que me cercavam. Ela, então, me abraçou dizendo: “Eu sei, meu amor, eu sei! Porque você demorou tanto pra se abrir comigo?”. Entre soluços, respondi que tive medo. Então ela disse: “Medo de quê? Eu sou sua mãe, te amo mais que a mim mesma independente da sua natureza! Você é meu filho e eu te amo”.
    NB, chorei feito um bebê. Me aninhei nos braços dela e a abracei com força. Era inacreditável que minha mãe estava aceitando ouvir uma confissão dessas do único filho homem com tamanha naturalidade! A emoção foi tão forte que acabei dormindo no colo dela, como há anos não acontecia.
    Quando anoitece, meu pai chegou do trabalho e minha mãe foi direto com ele pro quarto. Depois de alguns minutos, ela me chamou pra dentro e saiu, me deixando sozinho com ele. NB, eu já sabia o que fazer, havia feito isso horas antes, e ele encontrou provas cabais do que eu tinha a dizer. Ainda assim, foram as mesmas sensações e emoções de antes: boca travada, coração acelerado, tonteio, tudo. Mas me esforcei e consegui falar. Ele me disse que a relação com o pai dele era horrível, tinha sido horrível a vida toda, e que ele havia jurado pra si mesmo tentar ser um pai melhor que o dele, na medida do possível. Ele e minha mãe já haviam conversado sobre mim, e ambos chegaram á conclusão que “Amor de pai é incondicional! Você é meu filho e eu te amo! Nada além disso tem importância!”.
    Nossa, só eu sei como me senti, o tamanho do alívio. Ouvir da boca dos meus pais que a minha sexualidade não era um problema foi a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer na minha vida. Sei que muitos jovens não têm a sorte que eu tenho. Muitos são açoitados, expulsos, mortos. Sei que a opinião dos meus pais não reflete a opinião da sociedade em geral e não reflete nem mesmo a opinião dos meus tios e primos. Eu sou muito agraciado por ter pais que me amam dessa forma.
    Desde então, só meus pais, duas irmãs mais novas, Ana e a irmã gêmea dela, além do pessoal do Bar do NB, sabem a verdade. Ainda sinto nos meus pais uma pitadinha de desejo de me ver casado com a Ana, tendo filhos e sendo feliz, mas eu sei que isso não vai acontecer, e sei também que eles vão entender.
    Meses atrás bebi demais e peguei um menor na balada, mas são coisas da vida. Tinha muita gente da faculdade lá, mas até hoje não ouvi um comentário sequer, então está tudo numa boa. Ainda não achei um cara legal pra ter um relacionamento sério, mas estou na busca.
    Nunca namorei na vida, mas ainda tenho esperanças de arranjar um marido, adotar filhos e ser feliz numa casa de campo – essa é a minha utopia amorosa.
    Comecei a praticar Kung Fu em junho de 2013, e adquiri a coragem e confiança que me faltavam na vida pra tomar as atitudes necessárias em busca da minha felicidade.
    Bem é isso: eis a minha historinha “Boboca”. Obrigado desde já pela paciência de Jó em ler esse texto infinito.
Paz, irmão.
Foco, força e fé.
Dias de luta, dias de glória.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Abraços, e continue conosco.
contato: ozymandias_91@yahoo.com.br

segunda-feira, 10 de março de 2014

memórias

    A maior parte dos dias das nossas vidas são tão ordinários que dificilmente atribuímos a eles um lugar cativo na nossa memória. Imagino que se fôssemos escrever um livro de memórias, incluiríamos 2% dos dias vividos, em que realmente lembramos alguma coisa. 
    Porém, neste contexto, algumas experiências são tão marcantes que mesmo depois muitas décadas, ainda conseguimos lembrar traços de um acontecimento. No meu caso, quase duas décadas depois, ainda tenho vagos borrões de lembranças que considero minhas primeiras experiências homoeróticas. A primeira e mais antiga aconteceu em uma locadora de vídeo. 
    Na época eu tinha de 4 a 5 anos e gostava de ir com meu pai escolher filmes, mesmo que quase sempre eu acabava escolhendo algum filme dos Cavaleiros do Zodíaco, e mesmo que o já tivesse assistido. No tempo em que meu pai terminava a sua escolha, eu vagava pela locadora, e um dia acabei terminando na área de videos pornô. Um vídeo que acabou sendo objeto da minha admiração por um tempo maior mostrava uma mulher com um grande número de machos ao redor, no que parecia ser um filme do estilogangbang
    Fiquei contemplando todas aquelas pirocas na capa do vídeo e naquele momento estava em êxtase com o tanto de sensações novas, pois era a primeira vez que eu estava vendo um pau adulto duro. Aquela imagem nunca mais me saiu da cabeça, e imagino que ainda hoje eu conseguiria desenhar o que vi naquela capa. 
    A próxima experiência (que eu me lembro) aconteceu quando assisti, na sessão da tarde, ao filme lagoa azul. Lembro de uma cena que o rapazinho desce uma cachoeira nu, e nesta cena é possível ver seu pênis. Por algum motivo a Globo não cortou a cena na época e acabei vendo. Desde então, sempre que a lagoa azul passava de novo na sessão da tarde, eu fazia questão de ver, mas para minha decepção, esta cena já era cortada. 
    Não sei dizer se estas experiências eram acompanhadas de excitação sexual, pois a lembrança que tenho era de curiosidade, majoritariamente. Queria ver detalhes daquele órgão, que mesmo externo, é tão coberto por panos e tabus. Talvez todo o tabu e tensão em torno do órgão causou a minha curiosidade, que pode ter se tornado uma obsessão. 
    Quanto à curiosidade pelo sexo oposto, na mesma época, ela era apenas por seios. Porém, esta curiosidade pelos seios nunca se mostrou nenhum pouco tão intensa quando comparada com o corpo masculino. 
        Não tenho a pretensão de fazer conclusões para o meu comportamento homossexual presente baseado na minha curiosidade infantil, mas algumas proposições podem ser interessantes. Primeiramente, será que a exposição ao corpo masculino numa idade muito nova pode ter tido alguma relação com o meu comportamento sexual homossexual como adulto, ou isso aconteceria de qualquer maneira? Será que esta curiosidade em pouca idade sobre o corpo e órgão masculino são comuns entre gays, ou crianças em geral? Pode-se fazer um milhão de perguntas sobre o mesmo assunto para adultos heterossexuais, mas imagino que mesmo com todas as respostas ainda teríamos um resultado inconclusivo sobre o assunto.
    Enfim. A título de conversa, querido e respeitoso participante deste blog, qual a primeira experiência homoerótica de que te recordas?
Um grande abç,
N.B.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

utilidade pública

    Gosto muito das apresentações do TED. Dia desses vi um vídeo que abordava o mecanismo de amor e traição nos humanos, e gostei muito. Neste que indico, o amor como conhecemos hoje é abordado como constituído por três pilares, e o que achei mais interessante é o que nos ajuda a aturar o parceiro(a) por um determinado tempo, geralmente por um período que corresponde ao tempo de criação da prole até que esta já não seja totalmente dependente dos pais para sobreviver. Este pilar se relaciona com o comportamento monogâmico que existe em alguns primatas, que permanecem monogâmicos até que a cria esteja preparada para sobreviver sozinha, e ao mesmo tempo coloca em dúvida se é possível continuar com uma pessoa depois do intervalo de tempo quando esta ilusão que temos é desfeita, abrindo brecha para considerar o casamento para todo sempre como impraticável. Retomarei este assunto noutro texto.
    Em um momento, a palestrante relaciona a liberdade de ser que observamos nas últimas décadas com o reganho de poder e de liberdade sexual da mulher no cenário social.
Reganho porque, de acordo com a palestrante , e de acordo com historiadores (possivelmente), a mulher tinha a mesma importância econômica e, portanto, social, que homens durante a época que éramos nômades coletores. As tarefas eram divididas, ou podiam ser realizadas por ambos os sexos, e portanto não cabia ali uma hierarquização de qual sexo era o mais importante para o clã. (até ~10.000 a.c.)
    A partir do momento que as tribos humanas dominaram a agricultura e se tornaram sedentárias, as tarefas passaram a ser divididas de acordo com o sexo, porém a palestrante não menciona o critério. Eu chutaria que a maior força física do homem o dava vantagem na realização de tarefas agriculturais, o que deixava o provimento de comida a cargo do sexo masculino, e isso o colocava em uma posição superior à mulher que realizava qualquer outra atividade de suporte. Isso justificava a organização da sociedade em torno do homem e a subjugação da mulher pelas bases de tribos paternalistas e machistas. 
    Finalmente, a revolução industrial absorveu a mão de obra feminina, e a revolução tecnológica da qual somos contemporâneos consegue colocar a mulher em posições equivalentes ao homem em diversos setores da economia, e até em setores superiores. Essa equiparação de poderes econômicos, e o consequente reposicionamento da mulher na distribuição de poder da sociedade, permite que ela se coloque num patamar de exigir seus direitos sexuais assim como o homem, e desfazer a repressão que o paternalismo as impõe. 
    De carona com a libertação feminina, nós gays vamos no mesmo barco que rompe as bases paternalistas e machistas do mundo, e se temos maior liberdade de ser e de agir hoje, devemos muito às mulheres. 
Um grande abç,
N.B.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

a arte do tédio

    Algumas pessoas me perguntaram sobre o que eu achei daquele beijo gay que aconteceu na última novela. Sei lá, eu vi, eu comentei com amigos, eu torci para que ocorresse, mas sinceramente, aquilo foi entediante, foi pouco, foi broxante, foi "argh, que preguiça, meu deus". 
    Alguém aqui já assistiu àquele filme "Ninfomaníaca"? Eu assisti no começo do mês em um cinema alternativo de BH, chama-se Cine Belas Artes. Ele fica próximo à praça da liberdade, fora de shopping, e as salas são menores, mas não pecam (muito) em qualidade. Fui apresentado a este lugar por um amigo que já esteve por lá, e minhas impressões foram bastante positivas sobre o lugar. Ele é uma mistura de café e bar, e ainda possui exposições artísticas. Talvez por esse ar alternativo, o que senti era que a grande maioria do público local era composta de pessoas de look alternativo (não necessariamente gays, mas com um número elevado de gays) e de casais de mais idade. 
    Na sala, um cara de dreads sentou-se na minha frente, e sua cabeleira, cultivada com bastante adubo por muitos anos, ficou a tampar minha visão, de modo a fazer com que eu tivesse que inclinar o pescoço levemente para ver a tela sem interferências. 
Apesar da pólo e do cara de dreads, a experiência foi ótima, e o filme, uma obra prima. Para quem ainda não ouviu falar, ou para quem não viu, procure ver. Se trata de uma abordagem poética e com toques científicos muito bem embasados sobre o vício em sexo. 
    Infelizmente, e ironicamente no cinema hipster, eu assisti à versão censurada. Esta versão corta a exibição de pênis duros inteiros, mas mesmo assim existe muita fartura de falos ao longo do filme. Não se deixem levar pelo julgamento de ser mais um filme pornô com uma história fraca, pois não é. A poesia com que o filme trata a presença e a importância do sexo na vida de uma pessoa é sem igual, mesmo sendo pela pele de uma mulher ninfomaníaca. 
    Muitos tabus sexuais são explorados ali, e uma das coisas mais interessantes que achei é como alguns desses tabus, e a culpa que a personagem sente por eles, são aliviados por observações de fundo científico e impessoal de uma outra personagem.
    Esse filme contrasta brilhantemente com a audiência que o beijinho inocente da novela causou. Enquanto o beijo foi assunto para essa gente castrada sexualmente e culturalmente, existe arte de tamanho inimaginável que explora tabus muito mais profundamente, de forma criativa e sem cliché, e sem medo de exibir o que realmente pode te fazer pensar por perspectivas novas e sobre novos assuntos. Imagino que esse povo da novela, que fica tão impressionado com uma cena conservadora e entediante, não sabe o que está perdendo.
    Deixe a população com as Helenas de Manoel Carlos, e com essa coisa entediante que corrói o cérebro sem apresentar nunca nada de novo ou ousado. O mundo nos oferece mais, e temos o privilégio de poder desfrutar de tudo o que ele nos dá (exceto drogas, gente, drogas não são de deus. Bom, algumas são).
Um grande abç, 
N.B.
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(Legendas disponíveis)



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crimes de ódio e outras coisas

Duas Três constatações acerca da vida:
1 - Eu morro de inveja daqueles casais com fotos públicas no Instagram e a sensação de pertencimento que eles transparecem. Os modelos são lindos, tanto eles quanto elas, e os filtros retrô ajudam a tornar as fotos ainda mais lindas e cheias de sentimento.
    Parece que ali existe uma relação entre o casal e o universo que é totalmente harmoniosa, na qual o mundo espera que eles fiquem juntos, e eles esperam o reconhecimento do mundo por estarem juntos.
    Essa relação harmoniosa nos parece tão distante quando imaginamos nossas possíveis (sofridas, ínfimas, escondidas) relações homossexuais, e ficar observando aqueles casais é como um tapa de realidade fazendo um PAH na sua cara para dizer "acorda, isto não é para você".
    Mas querer reconhecimento é fútil, e pertencimento é supervalorizado, e dá pra viver muito bem sem ele.
Mentira, eu não acredito nessas duas afirmações, mas tento me convencer para não entrar numa espiral de humor negativo.
É foda, mano, é foda.

2 - Se existe homem solteiro, há uma grande chance de ele ser gay.
    Em BH, por exemplo, existem 88 homens para cada 100 mulheres. Se você considerar que o índice de homossexualismo é maior entre homens do que entre mulheres, sobram 50 homens héteros para cada 100 mulheres. Ou seja, se todos os homens héteros encontrarem um par, ainda sobram 1 milhão de mulheres solteiras, doidas para dar.
    As contas acima foram feitas por um chimpanzé graduando em piscicultura, e não podem estar erradas.
    Enfim! O tópico 2 é somente para comentar sobre a razão de sexos em cidades grandes, que sempre apresentam um número maior de mulheres. Porto Alegre, por exemplo, está com 86 homens/100 mulheres, o que é preocupante caso você seja uma mulher. Quem quiser conferir a razão na sua cidade, a planilha do IBGE está neste link, e é bem legal.

3 - A importância da visibilidade
    Nesta semana, um menor de idade (Kaique) supostamente gay foi supostamente assassinado em SP após sair de uma balada. Esse fato reacendeu a discussão sobre a criminalização da homofobia, pois a polícia caracterizou a morte como suicídio. Para quem não ficou sabendo, o menino foi encontrado com o rosto desfigurado, e com supostos traços de tortura.
    Quem acompanha casos de violência contra homossexuais e transsexuais no país, sabe que este tipo de suposto crime não é incomum, porém sempre vem acompanhado da dúvida de que o crime foi motivado pela sexualidade ou expressão de gênero da vítima. Infelizmente, estes casos aparecem apenas em noticiários locais, e essas vítimas são invisíveis à opinião pública, seja por estarem em lugares secundários do país, ou seja pela sua posição social, o que leva as pessoas a pensarem "ah, foi por causa de drogas/dinheiro/vingança", e nunca por causa da sexualidade. É razoável se considerar outras causas para um crime, pois não devemos cair na paranoia de pensar que todo homossexual morto, morre por causa da sua sexualidade. Infelizmente, isto não acontece nos grupos secretos gays do Facebook que pertenço, pois percebo que as opiniões são absolutamente polarizadas em considerar estes crimes como frutos de ódio motivados pela sexualidade, exclusivamente. 
    Ao ver as fotos de Kaique, pode passar pela nossa cabeça que estamos imunes a este tipo de crime, ao perceber que o menino pertence àquela classe invisível e estigmatizada do homossexual negro, pobre e afeminado. Este pensamento pode até ser coerente, mas apenas se você estiver planejando passar a vida escondido dentro de casa ou em um casamento com a esposa acessório, sozinho sem parceiro e sem amigos.
    Por isso, perceba que uma pessoa não precisa se parecer com o menino Kaique, e nem com a lacraia, para ser vítima de um crime de ódio, pois até héteros masculinos em momentos de demonstração de carinho são vítimas por serem confundidos com homossexuais, digamos, num abraço inocente entre pai e filho. Estar no lugar errado, na hora errada, e com o mínimo de característica que levante alguma suspeita a respeito da sua sexualidade, seja pela roupa, pela postura ou pela companhia, pode fazer de você uma vítima.
_Ah, NB, mas não sou e nem curto afeminados, e não frequento lugares gays. Portanto, estou seguro.
    Sim, talvez você esteja mais seguro que os outros. Mas e se você quisesse frequentar esses lugares e agir da forma que quisesse, você seria livre para isto? Não imagino que isto tudo se trata de quem está seguro ou não, ou de como se deve agir para estar seguro, mas sim da liberdade que não temos de estar nos lugares que quisermos, ou agir da forma que quisermos, ou demonstrarmos carinho com o nosso possível namorado, filho ou amigo, exatamente por medo de ser uma possível vítima como o menino Kaike.
    O fato de sermos tão covardes ao ponto de esconder a sua sexualidade torna este tipo de crime um fato distante da maioria dos lares brasileiros, e exclui a possibilidade dos nossos familiares, sejam eles nossos pais, tios ou primos, se preocuparem com a segurança do membro da família quanto aos crimes de ódio. 
    Existe um texto rolando por aí (que eu não li) que diz que o congresso foi cúmplice do (possível) assassinato deste menino, exatamente porque não aprova leis de proteção à "minoria" a qual pertencemos, mas eu discordo (do título) deste texto. As leis são um reflexo do pensamento da sociedade média, e os maiores cúmplices deste possível assassinato brutal, e de todos os outros crimes motivados pela expressão de gênero da vítima, são os homossexuais enrustidos que alimentam a inércia e a ignorância do povo que tende a pensar que gays são apenas aquelas figuras caricatas e femininas, que não merecem respeito e não tem direito à vida.
    Porém, somos humanos naturalmente fracos e egoístas, e quem pode se esconde. Eu, por estar na mesma posição em que critico, não posso julgar quem faz o mesmo.
    Ao nos esconder, pensamos no bem próprio, imediato e pontual em detrimento dos benefícios maiores e de longo prazo, que necessitam de uma medida altruísta e difícil no início.
Dessa forma, nós não mudamos o mundo.
Um grande abç,
N.B.
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