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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Medo: um sentimento que nos assombra

Interlúdio - por Lucas

    Muitos amigos e colegas acham o máximo eu ter conseguido contar a verdade sobre mim para meus pais, ter lutado contra o preconceito dentro de casa e rompido barreiras. Sair do armário ou até mesmo começar a abrir as gavetas, para alguns, é quase uma espécie de ato heroico. Talvez eu seja, na realidade, um grande covarde, porque ainda sinto muito medo. Esse é um dos sentimentos mais persistentes na vida das pessoas que se interessam pelo mesmo sexo. 

    Quando você ainda está no armário, tem medo de ser descoberto pelos amigos, pela galera do trabalho, pela família. Quando sai, tem medo de como será a reação deles, todo o processo até a aceitação. Será que no final do arco-íris vamos encontrar o pote de ouro? Ah, nem tudo são flores! O arco-íris do caminho para a independência, para conseguir ser você mesmo, é mais preto e branco do que colorido. E o medo da violência urbana? De descobrir que o que falam de nós tem algum fundamento? Medo de acabar sozinho... talvez um dos piores.

    Sabe do que eu mais tenho medo? De perder a minha mãe mais do que já perdi. Isso é uma das coisas que ficaram mal resolvidas dentro de mim ao longo desses três anos. É difícil falar sobre isso, mas se eu ajudar uma pessoa que seja, valerá a pena. “Ninguém ama você mais do que sua mãe”, é o que dizem por aí. Senso comum. Infelizmente, eu penso que não é regra geral. Existem realmente pais que espancam, matam e cometem barbaridades com os filhos. 

    Não é o meu caso. Tenho plena certeza de que fui e sou muito amado pelos meus pais. Nada no mundo supera isso. Nenhum amigo, nenhum namorado. Quando eu fazia minhas buscas pela internet e procurava me abastecer de informações, na época em que planejava dizer algo a eles, ficava com muito medo dos relatos que lia pela internet. Vários falavam coisas do tipo: “Contei para minha mãe, saí de casa, moro sozinho e tenho minha própria vida. Conquistei minha independência financeira e meus amigos me apoiam. Ah, e minha mãe não fala mais comigo há dois anos. Está tudo bem”.
    Como pode estar tudo bem? Ou então depoimentos que simplesmente omitem a figura do pai, colocando uma grande elipse no relacionamento paterno, como se ele de nada valesse. Acredito que ninguém deseja viver afastado, rejeitado ou em pé de guerra com a própria família. Nem sempre há escolha.
    Não condeno quem reluta em sair de sua zona de conforto do armário. Que, por sinal, não tem nada de “conforto”. Na outra ponta da história, nossa vida é tão difícil quanto. 
    O Dia das Mães acabou de passar. A minha tem um problema hormonal sério: hipertireoidismo associado à Doença de Graves. Tomou remédios durante vários meses e não surtiram efeito. O médico recomendou que ela fizesse um tratamento com ingestão de iodo. Os efeitos colaterais são diversos. O pior é que os exames mostram as taxas indo em direção contrária aos valores de referência. O que deveria estar alto, está baixo. E continua caindo. Ou vice-versa. Hoje (17) saíram novos resultados de um exame. Todas as taxas, sem exceção, pioraram. O médico fala que é normal isso acontecer, mas bate aquela insegurança.
    E aqui voltamos a falar dos medos com direito a uma confissão triste, mas sincera: Eu tenho muito medo de perder minha mãe porque sinto que passei a amá-la menos. As confusões, brigas em casa, o que escutei, coisas que fui obrigado a fazer... o caminho que encontrei para encontrar forças e não me curvar à vontade deles foi endurecer meu coração.
    Eu era muito carinhoso e passei a ser mais grosso, irritadiço e frio com ela. Cheguei ao ponto de que vê-la chorar, muitas vezes, em nada mexeu comigo. Afinal, quantas vezes chorei por conta de atitudes e palavras dela? 
    É uma culpa “desculpada”, mas ainda assim, uma culpa que sinto. Ter consciência disso e falar sobre só não é mais difícil do que se esforçar para reverter o quadro. Atualmente, tenho tentado me controlar e ser mais amável. Claro, sem forçar a barra e com sentimentos verdadeiros.   
    Espero que todos vocês lutem contra o preconceito, a começar pela autoaceitação e pelos pensamentos e atitudes dentro de casa. Defenda sua liberdade, você tem o direito de ser feliz e ser você mesmo. Você tem o direito até de ser triste e melancólico. A decisão está nas suas mãos. Crie forças e lute, a vida não é infinita para você perder tempo. Mas, por favor, entenda o lado dos seus pais. Isso não significa se curvar a eles nem ser dominado, mas entenda o sofrimento deles, também. Não seja oito nem oitenta. 
    No meio do caminho, podemos machucar e afastar pessoas que nos amam e se importam de verdade com nós. Mesmo que tenham ferido seus sentimentos, engula o orgulho, tente se livrar da mágoa e do rancor. 

All You Need is Love!

Beijos e abraços,
Lucas




terça-feira, 1 de maio de 2012

Rotina numa sala de engenharia

    Semana passada surgiu um tema interessante durante minha aula. Começamos falando sobre uma famosa imagem de uma modelo usada em processamento digital de imagens. O detalhe é que a modelo estava nua e como era uma turma majoritariamente masculina, já era de se esperar risadinhas nervosas para disfarçar o desconforto com o assunto, e cada um querendo se mostrar o mais macho possível. Típico.
    Não mais que de repente, assunto passou da nudez da modelo para um caso que aconteceu em outro departamento, tido como mais tolerante com homossexuais, sobre um suposto professor homossexual assumido nesse departamento exibindo um filme erótico para a turma e explicando a dinâmica do sexo anal.
    Achei desnecessário ele ter mencionado a orientação sexual do professor, uma vez que a exibição de filme erótico seria de extremo mal gosto em qualquer circunstância para uma atividade acadêmica (exceto em situações em que se estudam o comportamento humano, assuntos antropológicos e etc).
    Dali, saiu a mais inoxidável das passagens da última semana "Ser homossexual antes era reprimido, depois foi aceito e hoje é incentivado. Eu não sou um fã de tudo que Dilma faz, mas pelo menos ela acertou quando não deixou aquelas cartilhas serem distribuídas às crianças. Imaginem só! Crianças de 10 anos de idade que nem sabem o que é sexo iam receber um material fazendo apologia ao homossexual-ismo. Mas eu não tenho nada contra os gays.", disse o professor.
    Eu, que sou um aluno tipo moita, fiquei tão inquieto na hora que me deu vontade de chamar o professor para um debate. Acho que ele não deve ter considerado o fato de que, mesmo que obviamente não tenham iniciado suas vidas sexuais e nem ainda sentem necessidade disso, as crianças precisam saber que quando iniciarem, será normal se sentir atraído pelo mesmo sexo, se esse for o caso. A grande maioria delas teve contato apenas opiniões contrárias  ao sentimento entre o mesmo sexo e por isso eu acho importante que as crianças possam ter uma oportunidade de saber que aquilo é normal. É evidente que muitas nunca vão ouvir isso dentro de casa, o que causa tristeza profunda no crescimento, caso elas se identifiquem como gays.
    As cartilhas, pra mim, eram uma questão de saúde pública e bem estar, ao deixar a juventude confortável com sua sexualidade, qualquer que seja, e assim evitar gays depressivos e suicidas.
    Eu me lembro a primeira vez que me senti atraído por um menino. Era na segunda série e ele era da terceira. Lembro que eu ficava muito concentrado olhando-o passar, não conseguia desviar os olhos. Acho que na 2a série temos 8 anos? Não sei. Tenho memórias bloqueadas da época em que estudei numa escola estadual apelidada de "Mobral". Ela tinha fama de ter os piores alunos e muitos maconheiros também. Eu sentia confusão dos meu sentimentos desde antes do meu despertar sexual e isso provavelmente acontece com outras crianças também. Eu tive sorte, apenas ignorava ao passo que eu também me sentia atraído por garotas. Ou eu achava que me sentia atraído. É muito obscuro pra mim. Enfim.
Não concordo que isso é apologia. Também não concordo que seja muito cedo. Nunca vi ninguém virando gay apenas pelos outros dizendo para que virassem. E nem gay virando hétero por apologia, que existe em exagero. 
    Dizer que existe apologia a uma determinada sexualidade é tão estúpido quanto dizer que gostar de uma pessoa por sua personalidade é apologia a feiura. 
Pra mim, a cartilha era importante que viesse cedo para que se evitasse a formação de mais preconceitos antes da aceitação desses quase adolescentes. Não é possível que por trás do projeto do governo não houvesse psicólogos e especialistas em sexualidade que soubesse lidar com o assunto melhor do que quem fez pressão para que o projeto não fosse aprovado. Não acho que gente sem preparo devesse se meter na especialidade de quem trabalha com o assunto. 
    Uma política governamental não é posta em projeto sem ser detalhadamente estudada por especialistas, por isso eu acho que deveriam pensar duas vezes antes de dizer que aquilo seria apologia ou que o público alvo é novo demais para ouvir palavras de tolerância.
    O professor saiu como piadista, apoiado por um aluno abaixo da média que namora uma piriguete que foi estimulada a ser feia. E na minha omissão durante a aula, aumentei a inércia do mundo que insiste em permanecer opressor de viadinhos.
Um abç
N.B.
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