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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Queridas travas

    Ainda em dezembro eu assisti àquele programa do SBT 'quem convence ganha mais', quando o tema foi 'gays discretos' versus 'gays purpurina'. Havia um estudante de medicina na dupla dos discretos contra 3 artistas/dançarinos no grupo dos não-discretos. Nesse último grupo, 2 eram travestis e o outro apenas bastante afeminado, também lhe faltavam alguns dentes. Não quero, porém, desmerecer a retórica do rapaz pela sua aparência, ele se mostrou bastante educado e sensato. Só tenho minhas dúvidas na imparcialidade do programa em escolher um representante tão maltratado. Mas estamos falando de SBT. Enfim.
    Naturalmente, muitos se inclinam pelo lado dos rapazes discretos, que competiam contra as travas. Eles usavam o argumento, que eu já escutei muitas vezes e inclusive já usei para tentar explicar o preconceito contra gays, de que algumas pessoas não se assumem por vergonha e constrangimento que o comportamento dos não discretos causa nas pessoas, como se fosse uma falta de respeito ou um ataque à 'moralidade'.
Vale lembrar que, a princípio, eu acredito que o comportamento afeminado não seja uma opção em alguns casos, exemplificado por um amigo que deseja não agir dessa forma mas não consegue. Outros também exageram, mas não que isso seja uma coisa ruim. Também tenho conhecimento de casos de supostos 'héteros' que apresentam um sotaque afeminado mais intenso do que muitos gays, o que pode mostrar que esse fenômeno não esteja relacionado à orientação sexual.
    Até pouquíssimo tempo eu pensava exatamente igual aos gays discretos do programa. Pensava que os afeminados só atrapalhavam a vida de quem é discreto, ao criar toda aquela imagem de escândalo em torno de si e que era o objeto da crítica.
Olhando de uma perspectiva diferente, o que os gays discretos estavam dizendo era simplesmente para que as travas não agissem daquela forma, e se encaixassem nos modelos discretos que tanto prezamos, porque se agissem de maneira comportada estariam contribuindo para a diminuição do preconceito.
    Mas que ironia. Gays, que sofrem tanto preconceito quanto os afeminados, dizendo a outros como agir. Isso não ajuda a diminuir o preconceito, mas a aumentá-lo pela determinação de mais um padrão a ser seguido, dessa vez pelos pelos gays. Como se somente o simples fato de ser gay não gerasse preconceito suficiente, eles agora dizem que ser gay e agir daquela forma é pior ainda.
    Oras. Por que tal comportamento deveria ser repreendido? Agir daquela forma não fere ninguém, não mancha a honra de ninguém, não custa e não mata. Para mim, comportamento que incomoda e que deveria ser passível de repreensão é quando aqueles missionários ficam pregando religião com um megafone na Praça Sete e violando meu direito de não ouvir asneira.
    Imaginem como seria chato se todos agissem da mesma forma, como robozinhos, respeitando os limites dessa moralidade contraditória que seja lá quem for inventou? Será que não é esse comportamento moldado de robô que defendemos quando criticamos alguém que seja afeminado? Será que não podemos respeitar a liberdade dos outros de agir da forma que quiserem, e apenas olhar para outra direção se incomodados? Porque a necessidade de ditar aos outros que devam agir como nós?
    Ao contrário do que parece estar difundido, ser gay não significa não ter preconceitos. A nós, senhores do armário e críticos do comportamento afeminando, peço que façamos uma reflexão para começarmos 2012 com uma mente mais aberta e talvez fazer uma mudança no mundo, a partir de nós mesmos. Enquanto não abraçarmos a diversidade dos héteros, gays, travas, afeminados e afins, não teremos o direito de pedir por menos preconceito contra nós.
    Por isso, gostaria de pedir desculpas às travas e afeminados.
    Isso porque já escrevi coisas ofensivas às travas na tentativa de preservar a minha masculinidade, nesse blog que deveria ser um lugar para conforto e aceitação. Desculpas em nome do pessoal discreto que tenta jogar a causa do preconceito contra gays nessas pessoas que, apesar de todos os ataques que sofrem, de todos os lados, continuam alegres e altivos. Desculpas por terem que enfrentar tanta hipocrisia de gays que lutam por aceitação, mas que não aceitam gays que sejam diferentes. Desculpas pela ignorância infinita da humanidade.
Um abç.
N.B.
PS: o grupo dos discretos venceu no programa.

22 comentários:

  1. Gostei muito do que escreveu e sobre o ponto de vista que você mostra N.B., mesmo sem querer e sem perceber as vezes acabamos agindo de forma preconceituosa...
    Abraço

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  2. nossa, estou orgulhoso de vc
    de verdade!
    muito orgulhoso

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  3. Meus parabéns N.B., mais uma vez se superou. Muitos de nós, discretos, já culpamos os pobres afeminados por todo o preconceito que existe contra homossexuais, mas devemos nos atentar para a hipocrisia que existe nessa forma de pensar, como você mesmo disse.

    Creio que o que não gostamos realmente é de sermos generalizados. Exemplificando: um bailarino hetero que tem como melhor amigo um homossexual, não gosta de ser chamado de gay por ser bailarino. Nós não gostamos da visão generalista das pessoas de que todo gay é afeminado, simplesmente porque não somos assim.

    Mas não devemos culpar os afeminados, eles estão simplesmente sendo espontâneos, e aparecem mais que os discretos que permanecem escondidos em seus armários (isso sem falar dos gays de seriados e novelas). Ao invés de culpar os outros, nós é que deveríamos nos assumir e surpreender todos a nossa volta, mostrando que sexualidade nada tem haver com masculinidade/feminilidade.

    *Isso é tudo minha opinião, critiquem a vontade

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    1. Oh, realmente, eu deveria ter citado alguma coisa sobre o tratamento de grupo no texto.. mas obrigado por ter nos lembrado disso, acrescenta muito aa discussao rsrs
      Entao, da mesma forma que vc disse, gays sao diversos demais para serem tomados com essa imagem, que por ser mais exposta e 'barulhenta' acaba por definir nosso estereotipo porem ainda não acredito que isso seja motivo para menosprezo dos colegas femininos.
      Um abç!
      N.B.

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    2. Com certeza, isso não deve ser motivo para menosprezo, muito menos para culpá-los pelo preconceito que existe contra homossexuais. O preconceito já é algo MUITO mais antigo que a cultura gay

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  4. Nossa, lindo texto.

    Fico imaginando quantas vezes agredimos ou criticamos para nos preservar, seja no trabalho, na escola ou em todo meio social que vivemos. Isso aumenta sim o preconceito e nos torna mais mesquinhos também.

    Estamos nos atolando em hipocrisia e preconceitos, que ajudamos sim gerar e multiplicar... Infelizmente! Isso em pleno século 21... Quando vai vir a iluminação para o ser humano? Ou será que nunca virá?

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  5. Simplesmente perfeito vc falou tudo que penso parabéns. http://mixbrasil.uol.com.br/pride/abaixo-assinado-quer-impedir-que-igrejas-interfiram-nas-leis.html Ass: Carlos

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  6. Concordo com tudo que escreveste NB, mas deixo uma ressalva, não tenho nada contra quem é afeminado e nem contra quem é travesti, mas acredito que usar o bom senso seja uma coisa positiva a todos.
    Para bom entendedor meia palavra basta!

    Att. Mr. FG
    http://queermrfg.blogspot.com/

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  7. Concordo que é hipocrisia os "gays discretos" discrimanarem os afeminados. É como um moreno reclamar do preconceito contra a sua cor de pele e, ao mesmo tempo, discriminar os negros.

    Por outro lado, será que os afeminados mancham o nome dos gays? De certa forma, acho que sim. Acredito grande parte do preconceito deve-se à associação que a sociedade faz da imagem do gay com a imagem do afeminado.

    Todos os gay são afeminados? Claro que não. Acredito até qua a maioria não seja, mas é algo difícil de quantificar, pois penso que uma maior proporção dos discretos esteja no armário quando comparado aos afeminados.

    Os gays discretos não querem ser misturados com os afeminados. Não acho que eles estejam errados por pensar assim. O que está errado são os discretos discriminarem os afeminados. Eu me considero discreto e confesso que tinha preconceito contra afeminados. E acho q muitos pensam assim. Tanto é que a pergunta "é afeminado?" com certeza está entre as top 10 do bate-papo da uol.

    Ultimamente tenho mudado meu pensamento e já considerei tentar algo com um cara afeminado, apesar de ainda não ter acontecido. Por outro lado, ainda não gosto de ser colocado no mesmo "saco" dos afeminados. Não penso que seja um modo de agir errado: eu simplesmente não sou afeminado e não gosto que me vejam como um. Também acredito que a aceitação dos discretos seria mais fácil se não fossem vistos da mesma forma que os afeminados. Isso, entretando, não quer dizer que os afeminados devem ser rejeitados (tanto pela sociedade quanto pelos discretos).

    Lucas
    Fortaleza-CE

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  8. Também tinha esse argumento até perceber que sou um pouco afeminado kkk Já me falaram que às vezes eu sou e também me considero um pouco, mas percebi que às vezes, de certa forma, necessito ser. É, bizarro. Só quem é para entender
    Mas concordo com o Mr F.G, bom senso sempre é bom!

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  9. Falar de bom senso é complicado por ser subjetivo, entraríamos numa discussao contraprodutiva. Para mim, respeitar o meu direito de nao ter que interagir com quem eu nao quero, repeitar as leis de pudor e barulho já são suficientes.
    Um abç
    N.B.

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  10. Ai, ai, ainda querem culpar a vítima?

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  11. Meu amigo, já fazia um tempo que não visitava o seu blog, e por isso deixo aqui minhas sinceras desculpas.
    Desde o momento em que começei a ler este artigo notei algo de diferente. É nitido o quanto voce aprendeu, vivenciou. Todos nós, na verdade, né.

    Achei o texto de uma clareza incrível. Não somos iguais, e isso é que nos aproxima. Os 'padrões' só existem para suprir as limitações dos que o criou. Confesso que ainda tenho minhas limitações quanto aos afeminados, mas o respeito prevalece sempre.
    Abraço, e sucesso,
    Samuca !!!

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  12. Nada aqui falta, respeito pela diferença,o grande inimigo é o preconceito,os gays não estão livres de pecados dos outros, as regras devem ser tão gerais que nelas caibam o universo das diferenças individuais...
    Continua!

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  13. Não vou negar que também já compartilhei a ideia de que são os efeminados que desvalorizam a homossexualidade e prejudicam os discretos. Procurei me informar melhor e hoje mudei completamente meus conceitos. É bom que todos saibam que para homofóbicos não importa que letra você ocupa na sigla lgbt etc e tal: é TUDO VIADO E SAPATÃO. Eles colocam tudo no mesmo saco. E odeiam tudo do mesmo jeito, sem distinção. O problema não é vc ser efeminado ou não (para eles), e sim vc gostar de alguém do mesmo sexo. Temos que nos unir contra o inimigo comum e não nos dividir.

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    1. Os preconceitos não estão só do lado dos hetero, estão também... É só ouvir como alguns falam de outros! Eu diria que pior que um insulto ou um preconceito de heteros, é um insulto ou os preconceitos de homos!
      Se a uns não é de desculpar, aos homo é que é completamente indesculpável!

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  14. Para o Anonimo do dia 20, 06:12 PM

    "É bom que todos saibam que para homofóbicos não importa que letra você ocupa na sigla lgbt etc e tal: é TUDO VIADO E SAPATÃO. Eles colocam tudo no mesmo saco"

    E, de fato, "é tudo viado e sapatão".
    E, de fato, somos "a" farinha do "mesmo saco"

    :)

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  15. Ao anônimo de 22 jan 07:00 PM
    O que eu quis dizer é que as pessoas preconceituosas não fazem distinção se você é lésbica, travesti, efeminado. Não importa se sua preferência é para o mesmo sexo ou se, além disso, você também tem "transtorno" de gênero. Para eles tudo dá na mesma. Nós é que devemos repudiar o preconceito e não nos dividir em castas onde um discreto seria superior ao efeminado e por aí vai.
    Você pode ser o sujeito mais discreto e machão do mundo; experimente sair com seu namorado de mãos dadas na rua e vai ver o que acontece. Só para ficar claro a todos, quando coloquei "viado e sapatão" não quis usar essas expressões, que considero extremamente pejorativas e inadequadas, para ilustrar o que eu penso. De jeito nenhum. Usei essas palavras para mostrar como boa parte do mundo nos vê.
    Abçs.

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  16. "Falar de bom senso é complicado por ser subjetivo" Não, Bom senso não é de nenhuma forma subjetivo... Você pensa assim por sua cabeça ser das exatas, mas bom senso não passa de perspectivas e expectativas impostas pela pressão social. Simples.

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  17. Realmente essa questão de bom senso é difícil de explicar. Por um lado, esse conceito é demasiado subjetivo pois cada um de nós temos visões distintas acerca de um mesmo evento ou objeto. Essa visão varia em função dos nossos gostos, experiências, cultura, educação, criação etc. Todavia, discordando um pouco de sua opinião NB, acredito haver uma "regra geral" acerca do que é o bom senso. Essa regra é mais abrangente e é ela que permeia o modo da sociedade como um todo de pensar e agir. Mesmo que muitos não concordem com ela, a mesma acaba prevalecendo sobre as opiniões individuais por ser um produto do costume social que perpetua ao longo dos anos de forma espontânea no seio social. Inclusive, até sermos capazes de formar nossas próprias opiniões, todos nós somos levados a pensar de acordo com essa regra geral do que é bom senso. Eu cresci assistindo que você se vestir com roupas de um sexo que você não pertence é errado, feio, engraçado etc. Quando pude me informar um pouco mais, vi que não é bem por ai. Aprendi que algumas pessoas têm problemas de adequação sexual e por isso se comportam assim. Pensei com minha própria cabeça e abandonei a regra do bom senso geral. Hoje sigo minha opinião. Mas, infelizmente, não é assim que a grande parcela da população procede. A maioria, talvez por preguiça de refletir um pouco, prefere ir na onda do que é mais fácil de acreditar e por isso acabam manifestando um comportamento preconceituoso. Então, se a maior parte da sociedade pensa de um modo diferente do seu, isso não é algo que se deve ser ignorado, pois nessa gigantesca fatia incui-se seu chefe no trabalho, pessoas de sua convivência diária, familiares etc. Aí vem a parte de cada um de colocar na balança o que é mais importante pra si: se é ceder um pouco à sociedade e dar a ela o que ela quer mesmo que isso custe você fingir ser o que você não é ou tentar ser você mesmo e se preparar para matar um leão por dia, correndo o risco de perder oportunidades de emprego, recomendações, ser a piada dos locais em que se frequenta, entre outros. Posso estar sendo um pouco negativo por pensar assim, mas a mecânica da sociedade é essa gostemos nós ou não. Resumindo então, é por isso que acredito que, embora por um lado cada um tenha sua noção do que é bom senso, existe um conceito maior que dita a regra que todos deveriam seguir. É o que eu penso.

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  18. Nesse aspecto , pessoalmente , eu acho que o comportamento extravagante de alguns é algo um pouco complicado e que eu pessoalmente não entendo como um processo natural. Acho que é um comportamento mais associado a uma rebeldia ou a uma afronta "inconsciente" a sociedade. Eu me vejo como um cara feminino, tenho gostos muito mais femininos do que masculinos, mas ao mesmo tempo eu tenho a consciencia de que na sociedade sou um homem, posso em algum momento ter um comportamento que não seja de "machão" mas o ato de desmunhecar ou falar excessivamente em girias de candomblé como aqué , edi e outros termos adotados pelos gays mais afetados eu não manifesto de forma expontanea. Não sou nenhum grande exemplo pra aconselhar ninguem, sou um ser humano com falhas , medos e etc. Mas acho que quando somos mais discretos nos preservamos de uma série de aborrecimentos e agressões desnecessárias , se ser gay , é apenas amar uma pessoa do mesmo sexo o porque temos que caracterizar isto por meio de plumas e bandeiras arco-iris?

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  19. A questão é complicada. O comportamento dos afeminados é, sim, mais chocante para a sociedade e, talvez, alimente o preconceito por todos os gays. Devemos levar em conta também que eles sempre chamaram mais atenção na sociedade do que os discretos. Veja aí, nas últimas décadas, quantos gays artistas ou pessoas famosas eram afeminados? E quantos eram gays e "não pareciam"? Dos que "não pareciam" o povo nem lembra. Mas quanto mais espalhafatoso, mais gravado na mente das pessoas.

    Os discretos, por não apresentarem nenhuma característica diferente de um hétero à primeira vista, acabam passando despercebidos. E ninguém é obrigado a falar sua sexualidade para os outros. Então, naturalmente, este grupo não é facilmente lembrado pelas pessoas quando se fala em gay.

    Mas, entendam: estou falando apenas da sociedade associar gays com afeminados. A culpa, em si, não é dos afeminados, mas da sociedade. Se uma mulher, mesmo usando uma roupa decotada, é estuprada, a culpa NÃO é dela. Se uma pessoa usa um iPad na rua e é assaltado, a culpa NÃO é dela. Preconceito é crime, assim como o estupro ou o roubo.

    Os afeminados, independentes de ser por motivos biológicos ou ambientais, apenas são o que são. A sociedade não tem o menor direito de tratá-los mal. Tive professores excelentes, cada um apresentando um "grau" de feminilidade diferente. Mesmo que naquela época eu tivesse uma aversão maior do que hoje por afeminados, eles conquistaram um enorme respeito meu. Feminilidade não dita caráter, nem inteligência, nem coração. Um conhecido de uma amiga minha é afeminado e tem um coração enorme - ajuda bastante as pessoas. E aí? Esse cara vale menos que o hétero pegador branco cristão classe média?

    Eu admito que não gosto de ser associado aos afeminados, mas isso é culpa do preconceito meu e da sociedade. Eles, em si, não tem culpa.

    Abraços.

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