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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Notas rápidas 10

    Não tenho muito para falar, mas já tem um tempo que não posto. Resolvi, então, postar algumas fotos com um texto para disfarçar, e também desabafar, pois uma coisa muito interessante em BH, e por vezes muito irritante, é a secura exagerada das relações impessoais. Eu sou de um interior suficiente para me dar um sotaque óbvio por aqui, e lá, na grande maioria das lojas, o atendimento me recebia com um "bom dia" ou um "pois não?", e fechava a relação com um "obrigado", no pagamento. Principalmente em padarias, que são lugares de grande peso para começar o dia bem. 

    Em BH as coisas são bastante diferentes, e tenho notado que é mais e mais comum eu não ganhar nem um "obrigado" na saída. Isso sem falar das vezes em que o atendente substitui o "pois não?" por outros iniciadores menos polidos, e que me fazem meditar por alguns microssegundos se devo ou não apontar a aspereza da abordagem. Me sinto como se o funcionário estivesse fazendo um favor para mim, e eu devesse ser grato à chance de ser atendido por ele. Isso vale para funcionários públicos e privados, mas sem generalizar.
    Também, quando me mudei para cá, adorei a ideia de poder praticar a desatenção social com meus vizinhos do condomínio: aquela desatenção que te permite passar por uma pessoa sem olhar nos olhos para não ter que cumprimentar (ou constrangê-la). A premissa de cada um no seu quadrado é ótima, mas a desatenção tem me incomodado muito ultimamente. Gosto de dizer um "bom dia" com um sorriso quando encontro vizinhos pelas escadas, e não espero uma cara amarrada deles como resposta, com um "bom dia" pronunciado como se doesse, e que acontece frequentemente. 
    Fico pensando se fui mal acostumado com o interior, ou se tenho a cara muito desagradável para inibir pessoas de trocar palavras comigo. Ou talvez eu não seja tão carrancudo assim, e o atendimento de BH seja realmente digno se demitir muitos funcionários e reeducá-los. Ou talvez só falte simpatia às pessoas, simpatia que algumas pessoas podem considerar sua importância debatível nos dias de hoje... 
    Ou talvez eu seja chato demais. Só me esforçarei para não me tornar mais uma carranca nesse mar, apesar da tentação.

Um abç, e bom fds. Aliás, hoje é terça... Hábito.
N.B.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pai ausente

“O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”. - Jair Bolsonaro, Deputado Federal 
    Já tive dúvidas de que o relacionamento com os pais na infância pudesse ser um contribuidor para a expressão da homossexualidade quando adulto, exatamente pelo relacionamento com meu pai não ser o melhor do mundo. Já sabemos, porém, que investigar as causas da expressão de uma determinada sexualidades é inútil e contraprodutivo, mas ultimamente, alguns amigos gays tem-me reportado seu relacionamento distante com o pai, e levantam a questão de que essa dificuldade no relacionamento pode ter contribuído para terem uma inclinação homossexual.  
    Oras, é muito comum encontrar gays que têm dificuldades de relacionamento com o pai, e é muito chato ouvir de quem recrimina a homossexualidade que um pai distante, ou uma mãe super-protetora, faz com que o menino não siga um desenvolvimento normal, ou que se torne afeminado, etc etc. Até que faz sentido para quem ouve a hipótese levianamente. A ideia principal é: "o menino sente falta de uma figura masculina e busca o afeto com outros homens, que tomam a figura de pai", dizem. Essa hipótese é rapidamente refutada por exemplos de meninos que foram criados somente pela mãe, e que crescem gostando de vagina, com todos seus dentes e fluidos, o que mostra que isso não pode ser uma regra.
    Ainda, alguém pode afirmar que não é uma regra, mas que as chances de um menino se tornar gay, caso não tenha um pai presente, são maiores do que com um pai participativo e empenhado nas atividades pai-filho, tradicionais do papel de macho. Se alguém afirma isso, também tem que provar se quiser ser levado a sério, pois desconheço qualquer estudo (de fontes não tendenciosas) que indique isso. Esse tipo de estudo é muito difícil de ser realizado, pois tem que levar em consideração infinitas variáveis que possam influenciar na correlação, e a consideração ou não de cada uma pode levar a uma conclusão diferente. 
    Da mesma forma que afirmam que o homossexual-ismo é causado pelo distanciamento do pai, podemos facilmente inverter a direção de causa e efeito. Se gays têm um pai distante, a distância pode ser resultado da sexualidade do filho, e não o contrário, como é comumente acreditado. Neste caso, um filho gay faz com que seu pai se distancie, pois é comum que os pais percebam, mesmo que subconscientemente, que seus filhos são gays já em uma idade muito jovem. Com o distanciamento do pai, que também ocorre subconscientemente, a mãe se sente obrigada a preencher o espaço deixado por esse distanciamento, aparecendo muitas vezes como super-protetora.

    Em outras palavras, gays seriam gays independente do nível de comprometimento dos pais, e chegamos em outra hipótese que não leva a lugar nenhum na discussão de causas. Enfim. 
    E os senhores, como é o relacionamento de vocês com seus pais? Vocês acham que se tivessem um pai mais presente, que se empenhasse nas atividades para melhorar o laço entre pai e filho, faria alguma diferença nas suas sexualidades?
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Pausa para recomendação de um curta metragem espanhol, sobre banheirão. Um jovem que é adepto da prática, bastante comum mundialmente pelo que parece, lida com isso de uma forma bastante natural. Recomendadíssimo, tem apenas 20 min de duração, porém, não acho o video com legendas em português. Segue o link com legendas em inglês, de qualquer forma.

Um abç e bom fds.
N.B.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

gays superiores

    Nas minhas andanças pela web encontrei um site sobre um grupo de homens que fazem sexo com outros homens e que querem respeito por isso. Até aí nada de novo, mas eles têm um diferencial bastante peculiar: não são gays, mas autodenominados 'espartanos', e possuem um manifesto que explica detalhadamente o que os diferencia dos supostos gays - leitura interessante, à beira do cômico. De acordo com o manifesto, ser gay é idolatrar mulheres, ser extravagante e comprar tudo o que está na moda, enquanto que ser espartano é praticar sexo com outros homens sem perder a masculinidade.
    Gostaria de receber um sentimento de cumplicidade quando digo que já culpei a figura do gay estereotipado - afeminado, cabeleireiro, fashion e amigo das mulheres - pelo preconceito que todos os outros gays sofrem. Quem vê o grupo gay de dentro sabe que este não é apenas formado pela idealização popular, e receber as piadas e críticas dirigidas ao grupo que se baseiam na feminilidade que alguns homens carregam pode causar frustração por ser gay e repúdio contra os portadores do sotaque feminino, o que é facilmente percebido em frases do tipo 'não sou e não curto afeminados' ou 'odeio gay fada'.
    Pode ser impressão minha, mas muita gente tem usado a expressão 'gay afetado' para se referir aos afeminados ultimamente, sem nem se dar conta da conotação negativa que essa palavra carrega. Afetado está diretamente ligado a uma pessoa pega por alguma doença, ou que sofre por portar algo prejudicial a ela. Será que isso implica que, num mundo onde o homem (masculino) é o centro do poder e ditador das regras, qualquer homem que queira se portar femininamente está seriamente doente?
    Todos tem o direito de se sentirem atraídos por um tipo específico de homens, e gosto não se discute. É desnecessário, porém, atrelar o afeminado a algo negativo, como a palavra 'afetado', ou proferir palavras para menosprezá-los e diminuí-los, e assim se sentir um gay superior.
    Essa necessidade de atacar um grupo em favor de outro é tão boba e tão humanamente comum que se estende por inúmeros exemplos. Além de gays machos vs bichinhas, também é possível citar a dualidade nordestinos vs paulistas, donos de iphone vs android, funkeiros vs rockeiros, católicos vs protestantes, etc etc... Estes estão em discussões intermináveis para se convencerem de que são melhores do que o outro, e se esquecem que são absolutamente farinhas do mesmo saco, numa tentativa de definir suas qualidades em parâmetros tão pontuais e irrelevantes como estes. Nenhum membro conservador da sociedade está interessado em saber se você é um gay masculino ou feminino. Você é julgado simplesmente por se relacionar com homens, assim como estrangeiros não veem diferenças entre brasileiros nordestinos ou paulistas, ou ateus não veem diferença entre católicos e protestantes.
    Por outro lado,  a tentativa de se criar um novo conceito para homens que fazem sexo com homens, ainda fresco e sem alguns dos preconceitos amarrados aos gays (se for possível desvencilhá-los) pode ser uma alternativa interessante para amaciar os conservadores, assim como tentaram fazer quando mudaram a denominação de 'favela' para 'comunidade'. Suspeito que essa não tenha sido a intenção dos espartanos deste manifesto, e isso também não justifica as injúrias feitas contra os gays. 
    Se tentamos culpar nossos companheiros afetados pelas piadas sobre gays e pela discriminação, estaremos abrindo brechas para a desunião e mais preconceitos num grupo que já é frequentemente atacado por todos os lados. A origem do preconceito não está no sotaque afeminado de alguns homens e nem nas roupas ultra justas que alguns usam, mas sim na dificuldade que as pessoas tem em aceitar qualquer outro que exiba algum traço diferente do que elas estão acostumadas. Neste contexto, a mudança começa por nós =)
    Enfim. O que os senhores pensam sobre isso? Será que é válido criar um grupo à parte dos gays, como os espartanos, numa tentativa de fugir do preconceito? Ou será que criar um novo conceito para gays não afetados é uma boa alternativa? Ou o que significa ser gay para vocês? 

Um abç,
N.B.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Até mais, e obrigado pelos peixes!

No último sábado, dia 15, uma data passou despercebida pelos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta Terra, com exceção de apenas um deles. O único capaz de entender como aquele momento foi especial. Seis meses atrás, surgia um post diferente no Armário em BH, postado pelo autor N.B., mas escrito por outra pessoa. O título era assustador: Oi, eu sou o Lucas.

Imediatamente, surgiram as dúvidas se aquilo realmente daria certo. A polêmica podia ser observada nos comentários, com gente defendendo a abertura do espaço para colaboração e outros criticando a novidade. Com alguns posts, as reclamações diminuíram e os elogios aumentaram. Melhor do que isso foram as discussões - ora mornas, ora acaloradas - mas sempre com uma diversidade de opiniões que orgulha qualquer escritor.

Nas últimas semanas, após algumas conversas amistosas, o N.B. e eu decidimos apostar na "carreira solo" para deixar o blog com um estilo e uma identidade bem definidas. A princípio, confesso que pensei em parar de contar minhas histórias de vida. Logo vi que não daria certo. Vocês me conquistaram e sou apaixonado por esta energia que passa não só pelo Armário, mas por vários outros blogs da internet: A união e a vontade de ajudar o próximo compartilhando experiências e, ao mesmo tempo, oferecendo os ouvidos para escutar os leitores.

Não vou deixar de frequentar o chat do Armário nem de participar nos comentários dos posts. Entretanto, minhas colaborações agora farão parte do NossoColorido, site recém-criado que será gerenciado por mim e atualizado periodicamente.

Portanto, isto aqui não é uma despedida, mas quero aproveitar para agradecer algumas pessoas que fiz amizade e me deram apoio aqui ou na nova empreitada. Só ter conhecido vocês já teria feito tudo valer a pena:

N.B.
Mavi
Gus
Duds
Artur
Álvaro
Miguel
Philip
Eduardo GM
Diiego
Carlos
Matheus
Gustavão
FOXX
Eduardo Santos
Max
Mr. FG 
Bruno Alves
Bruninho (L)



Vocês podem até pensar que eu é quem ajudei. Mas só eu sei como foram vocês que me ajudaram a recuperar a vontade de lutar, amadurecer e acreditar que dias melhores virão.

Até mais, e obrigado pelos peixes!


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Homo-herói

    Sou viciado em notícias, e quando tenho tempo ligo na Globo News por horas. Como não tenho TV a cabo em BH, uso a TV apenas para assistir ao Jornal Nacional, pois assim o adéquo ao meu horário de janta. Essa rotina me faz estar muito por fora de como novelas e outros programas têm tratado a sexualidade, mas vez ou outra me deparo com filmes ou curtas brasileiros de tema gay pela internet. Certamente é uma tentativa que deve ser reconhecida, mas temo que isso não atinja o público que realmente precisa assistir para começar a tratar o tema sexualidade com menos espanto.
    Imagine quando a senhora cliente da Tele-Sena iria se infiltrar no Youtube ou fóruns de discussão para conhecer mais sobre a vida de gays? Imagino que esse dia demorará a chegar, mas ver uma ação mais ousada por parte dos meios que detêm o poder de alcançar esse público seria muito motivador. 
    Questões de alta sensibilidade como sexualidade, etnia e religião são tratados com muita cautela e insegurança pelas emissoras. Por um lado, é compreensível quando uma emissora escolhe se abster de temas que possam causar alguma revolta aos espectadores, especialmente em um país "conservador" - coff coff. Recordo-me que mencionei a pressão que a Globo sofreu para dar menos atenção aos personagens gays de Insensato Coração. Por outro lado, deve-se insistir nesse tipo de iniciativa pois é preciso que a população saiba que existem tantos tipos de gays quanto roupas existem no armário da Lady Gaga, e não apenas os estereótipos.
    Suponhamos uma novela, ou uma minissérie, com esse tema como o central. É muito fácil escrever um bom drama em cima das dificuldades que os gays enfrentam ao longo da vida, desde a reprovação dos pais e da auto-aceitação até a dificuldade de não se saber se pode-se investir em uma pessoa de interesse, ou a dificuldade de encontrar um parceiro estável. A polêmica pode ser um risco, mas também vende muito.
     Publicamente, notariam-se pessoas dizendo que não assistem tal programa por "incentivar o homossexualismo", mas a curiosidade precisaria ser satisfeita em algum ponto. Assistiriam, também, 100% dos homens que querem obter mais informações sobre os calores que sentem com o amigo, ou as sacanagens que imaginam fazer com outros homens, só na 'broderagem'. Numa afirmação leviana e que deixarei aberta, imagino que este grupo deve englobar quase a totalidade dos homens.
    Talvez seja um delírio esperar um programa com tema gay central. Não imagino nenhuma emissora ousada o suficiente para pleitear os grupos opositores, inclusive quando algumas delas são a própria oposição. Prefiro não nomear, mas algumas delas batem record de intolerância.
    Recebi muitas recomendações para assistir ao seriado Queer as Folk, que traz basicamente a ideia para as novelas proposta acima, e tenho certeza de que muitos se identificariam ao assistir. Ainda não posso dizer se vale a pena, pois não comecei a ver. As séries americanas funcionam como as novelas daqui, exceto pelas histórias mais criativas e pela forma de exibição: vão ao ar uma vez por semana e dão aos autores e elenco mais tempo para fazer um trabalho melhor. Sem falar do maior orçamento.
    Essa série foi filmada e distribuída no Canadá, mas direcionada principalmente para o público americano, e sofreu cortes quando foi ao ar nos EUA. Se no país que se diz obcecado por liberdade de expressão acontecem cortes, imagine o que as emissoras daqui estarão aptas a transmitir. -Ah, sim, claro! Mulheres completamente nuas sambando. Porque isso é moral, e dois homens se beijando (com roupas) não...
    E os senhores, o que pensam sobre o tratamento da questão homossexual em novelas e na mídia brasileira?

P.S.: Pausa para recomendar um dos melhores filmes de minha vida. Um gay sai do armário aos 71 anos depois da morte de sua esposa, e vai viver plenamente sua vida depois de casado e com um filho. O filme se chama Beginners (Toda Forma de Amor, 2010). Link para o trailer.

Um abç.
N.B.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Por favor, mais um dia...

Nunca consegui gostar de Química no colégio. Mas um dos professores de Química do meu ensino médio, este eu adorava. Em parte, porque metade das aulas não era destinada às explicações chatas sobre equações, balanceamento, molar, polar, ligação trivalente e todas aquelas coisas que fazem de você um aluno cobra. Aquele que passa se arrastando, como dizia meu pai. Este professor dedicava vários minutos a uma espécie de terapia. Dava muitos conselhos, conversava com os alunos e tentava passar toda uma filosofia de vida para aquele bando de adolescentes - eu incluído - que eram felizes e bobos e não tínham noção de como o mundo é difícil fora da sala de aula.

De tantas frases, o que entrou para minha memória foi quando ele falou o seguinte, ao divagar sobre problemas: "Não adianta se aperrear, nem chorar, nem ficar com medo ou quebrar a cabeça. Se o problema tem uma solução, corra atrás dela. Sempre tem uma solução para tudo. A única coisa que não tem solução é a morte. E se não tem solução, por que se desesperar se você nada pode fazer?"

Depois disso, acho que me tornei uma pessoa mais paciente e calma mesmo sob pressão. Fiquei mais zen, como se tivesse passado uma temporada com os budistas e os monges lá no Tibete. Sim, às vezes explodo por acumular muitos sentimentos ruins, mas quando isso ocorre é uma exceção e não uma regra.

Porém, nunca me deparei com a Dona Morte perto de mim, então não sei como reagiria em uma situação dessas. Mas o fato de nunca ter lidado com o falecimento de alguém próximo pouco me ajudou a afastar alguns pensamentos negativos da minha cabeça. Por mais brega e batido que seja, concordo com o ditado "Viva cada dia de sua vida como se fosse o último, pois um dia desses vai ser mesmo".

Mas, às vezes, acho que penso demais em morte. Digo, não é algo que eu converse com meus pais ou discuta em mesa de bar (falo como se vivesse em bar, coisa mais rara do mundo eu ir). Então não sei com que frequência as demais pessoas pensam em morte e se eu estou na média ou se preciso visitar um psicólogo. 

Desde criança, isso eu lembro bem, a ideia de morte me assustava demais. Alguns dias, do nada, eu me dava conta de que iria morrer e meus pais também. Chorava demais, inconformado, quase sempre escondido, como se tivesse descoberto um câncer. É uma dor diferente, de algo que não existe, mas que você sabe que vai chegar. Inevitável. Sofrimento por antecipação. Com vocês também é assim?

Hoje, aos 23 anos, a sensação não mudou. Família, amigos, trabalho, namorado, compromissos, diversão... tudo parece dentro dos eixos. Até que uma hora, do nada, eu sinto como se estivesse saindo do piloto automático e tomando consciência de que estou vivo. Do que significa estar vivo. E que irei morrer. Não estarei aqui em 2112, nem vocês. Nós, jovens, principalmente, temos a mania de achar que somos eternos. Morreremos, também. Algo me faz lembrar disso desde menino e não sei se isto é bom ou ruim. Bate uma depressão, uma vontade imensa de chorar.

Por conta de alguns trabalhos que fiz, já vi muitos corpos. Inclusive, vítimas de crimes violentos, com balas, sangues ou até acidentes de trânsito. Triste, mas uma tristeza com uma nota fria de indiferença. Meus avós paternos morreram antes de nascer. Não conheci. Os outros, felizmente, estão vivos. Um tio que morava em outro estado, querido, mas com pouco convívio, morreu há alguns anos. Foi triste, vim chorar muito tempo depois lendo as poesias que ele fazia. Mas não compareci ao velório ou enterro. Ano passado, o pai de uma amiga morreu. Pela primeira vez, cumpri esses rituais. 

Chorei de me acabar, pela dor dela e por uma dor minha. Olhar para aquele caixão me fez ver meu pai, minha mãe ou qualquer pessoa que eu ame demais ali dentro. Dá um medo muito grande. Tantas coisas que eu gostaria de consertar, de mudar, de voltar atrás. E se algo acontecer e eu não tiver a chance? Sinceramente, tenho mais medo ainda da morte de alguém que eu ame do que da minha.

Não sou religioso, embora mantenha as aparências por instinto de sobrevivência e para socializar. Não me orgulho de fingir isso. Verdadeiramente, sinto-me agnóstico. Existe algo lá fora, alguma força, entidade, uma razão para os mistérios, uma origem de tudo. Só não sei se isso interfere ou está preocupado conosco.

Independentemente de religiões, minha ideia de morte segue alguns princípios e moldes da minha imaginação de criança. Acho que quando morremos, nossa alma e nossa consciência transita neste mundo. Somos invisíveis aos vivos, mas podemos vê-los e podemos ver os mortos, também. Acho que até podemos aparecer, mas evitamos ao máximo fazer isso por algum motivo sábio. De repente, não seria sadio para quem está vivo. O mistério e o sofrimento amadurecem. Talvez seja isso, espero.

Penso, também, que temos direito a saber ou entender alguma coisa. É como se fosse ter uma pergunta respondida. Será que ele me amou de verdade? Quem realmente se importava comigo? Fiz mal ou bem às pessoas ao meu redor? Quais as consequências daquela atitude? E se fosse diferente? Creio que somos irradiados de verdade e enxergamos a resposta com uma precisão sobre-humana.

Gosto de pensar que a força do pensamento nos levaria a qualquer lugar do mundo. E também nos leva a alguém que já morreu e gostamos, mesmo que desconhecido. Eu poderia conhecer Michael Jackson ou Steve Jobs. Ou, claro, meus avós. Acho que eles me protegem de alguma maneira. Não têm controle sobre tudo, mas influenciam em algo. Eu, quando morrer, provavelmente também poderei influenciar aqui na vida.

Chego a essas últimas linhas como hipócrita assumido. Ao pensar nisso tudo, dá vontade de agradecer por estarmos todos aqui em casa, hoje. Não digo em voz alta, mas imagino: "Obrigado, Deus! Permita que possamos viver mais um dia, juntos, porque eu não saberia o que seria de mim sem eles". Quando paro para observar as fotos de antigamente e as de hoje, vejo as rugas, os cabelos brancos... aí me seguro para as lágrimas não rolarem.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Habemus Chat

Olá, pessoal. Tudo bem com vocês?

Este é um post atípico, sem historinhas e reflexões. Vou tentar ser objetivo.

O N.B. e eu temos conversado sobre implementar um chat ou algo do tipo para que os leitores possam interagir e a gente também consiga se aproximar de vocês, de forma mais moderna, em tempo real e com mais recursos. Muitos aqui já se conhecem por conta dos comentários e até trocam mensagens pelo MSN ou GTalk, mas sentimos que falta alguma coisa mais prática, uma plataforma que consiga unir todo mundo e fazer com que os leitores se conheçam melhor.

No início do ano, o N.B. tentou implementar uma ferramenta de chat que não deu muito certo, pois era complicadinha, precisava de login com e-mail ou via Facebook e ninguém queria usar. Recentemente, tentamos estudar algumas opções. Como sou mais nerdzinho e rato de computador, fiquei à frente disso.

Então, a solução que estamos querendo testar agora é usar o mIRC.

Para quem já usou ou entende de mIRC, nossas coordenadas:

Servidor: irc.irchighway.net
Canal: #VidaNoArmario

Para quem não entende de mIRC, recomendo dar uma googlada, mas segue algumas perguntas e respostas que podem ajudar:

1) O que é IRC ou mIRC?
IRC é a abreviação de Internet Relay Chat. É um serviço de chat e bate-papo na internet, que fez muito sucesso até o surgimento do MSN e a explosão de redes sociais como Facebook e Orkut. Para você ter uma ideia, ele é da época do ICQ. Não sabe o que é isso? Pergunte a alguém que usava a internet nos anos 90.

Já o mIRC é o programa (software) que acessa o serviço de IRC e é usado para se conectar.

2) Como funciona?

Basicamente, tem os servidores, nicks (que são os usuários) e os canais. Cada canal é como se fosse uma sala de bate-papo. Nele tem um tópico (uma mensagem de abertura), os administradores e operadores do canal (que podem banir ou kickar alguém do canal, além de torná-lo moderado) e os usuários comuns.

Tudo no mIRC é feito à base de comandos que iniciam com uma barra (/)

3) Quais as vantagens?

Apesar de ter caído em desuso, o mIRC é bem mais organizado como bate-papo do que Gtalk, MSN ou o chat do Facebook. Ele é propício para criar canais temáticos, relacionados a um site ou tema. Também é rápido, prático e simples, além de permitir um certo controle e moderação, quando necessário.

4) Quero experimentar, como faço?

Baixe o mIRC;

Quando a tela abrir, digite /server irc.irchighway.net

Depois de conectado, /join #VidaNoArmario

5) Como escolher ou registrar um nick?

Para trocar de nick: /nick <Nick Desejado>

Para registrar o nick: /nickserv register <senha> <email>

Para fazer "login" ou autenticar o nick que você registrou: /nickserv identify <senha>

Sugiro que registrem nicks, mesmo que pseudônimos ou apelidos. Assim como nos comentários, ajuda a identificar quem está falando sobre alguma coisa. Se o problema for usar uma conta de e-mail, recomendo o 10MinuteMail, um e-mail que expira em dez minutos, muito útil pra se registrar em sites e serviços sem usar o e-mail real.

6) Em que horário encontro vocês por lá?

Vou aparecer mais de manhã, à noite e nos finais de semana. Qualquer coisa, deixem um comentário aqui pelo blog falando que estão por lá. Se der, a gente entra. Espero que consigamos criar algum movimento por lá.

7) Não entendi nada, estou cheio de dúvidas, não consigo conectar nem nada.

Mande sua pergunta ou dúvida nos comentários.




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Filhos sem sentido

    Tenho gastado mais tempo pensando sobre o sentido da vida do que eu gostaria, e numa quase revelação nesse final de semana, cheguei à conclusão de que a resposta é complexa demais para eu entender, ou chegar até ela. Isso se ela existir. 
    Ainda não me soa coerente que aquelas proteínas, que conhecemos como DNA, queiram se replicar incessantemente, e nós somos instrumentos dessa ambição. Querem se replicar até quando? Até cobrir o universo com DNA, parece. 
    Os outros animais parecem lidar bem com isso tudo. São instrumentos dessa ambição, assim como nós, mas não se importam em não saber o porquê fazem o que fazem. Desde a organização do DNA, este sempre buscou a forma mais eficiente de se replicar, protegendo sua informação dentro de células, estas organizadas em tecidos, esses tecidos em órgãos e os órgãos em corpos. A seleção natural dá o direito de o animal mais forte (ou mais atraente) passar seu DNA adiante para o máximo de descendentes, o que torna o processo mais eficiente. Os humanos desenvolveram a inteligência, o que garantiu a perpetuação da espécie, mas não torna o processo necessariamente mais eficiente.
    Imagino que muitas das angústias humanas tem origem no confronto do nosso propósito original com o que nos é permitido, pois ao mesmo tempo que a razão nos tornou mais fortes como animal social, ela também criou barreiras que nos impedem de satisfazer esse propósito. A evolução se encarregou de nos lembrar fortemente do nosso propósito ao nos fazer libidinosos e inconsequentes quando precisamos de alívio sexual. Ao mesmo tempo, isso lembra o comportamento animal, e portadores de uma razão tão evoluída não podem se comportar assim, pois é repulsivo, de acordo com a convenção social tradicional. Por isso nos casamos e somos monogâmicos, desafiando o propósito de existir ao evitar outros parceiros e evitar a reprodução em larga escala.
    Talvez por isso existam tantos casos de traição, tantos casais presos pela conveniência e medo, vivendo miseravelmente até o dia da morte. O homem, ou nenhum outro organismo, foi feito para ser monogâmico. A forma de passar o DNA para frente da maneira mais eficiente é através dos parceiros mais saudáveis, e isso se expressa pela atração física. Uns podem receber mais ou menos convites para a traição do que outros, de acordo com o nível de atração que a pessoa exerce sobre as outras. Inevitavelmente teremos contato com pessoas atraentes e ouviremos o chamado do propósito se manifestando na forma de necessidade de alívio sexual. Imagino que nos negar a isso causa frustração.
    Eu tenho considerado que viver, em linhas gerais, causa mais sofrimento que felicidade. Tanto sofrimento físico, pois a partir do momento que nascemos, nossos corpos apodrecem mais a cada dia, quanto também psicológico, por não sabermos o motivo do DNA original nos usar como instrumento de reprodução. Viver não tem sentido, e saber disso frustra. Trazer uma criança à vida seria condená-la a sofrer também, sem nenhum pedido dela para isso. 
     Não consigo achar motivos convincentes que me façam querer ter filhos. Perguntei a alguns amigos o motivo pelo qual eles querem tê-los. Um disse que é porque 'todos devem ter'. Outros porque trazem completude à pessoa. Desconsiderando a primeira resposta por achá-la vazia demais, talvez o cumprimento do propósito original seja o que lhes traz conforto, mas pela minha perspectiva, replicar-se para se sentir mais completo me soa muito egoísta. Creio que pessoas com uma visão mais otimista sobre viver pode discordar de mim e achar que trazer uma criança à vida é dar a um ser a dádiva de viver, o que soa justo.

    Eu, de novo, que não vivo na minha bolha intocável ou realidade paralela, não deixo de ser influenciado pela convenção social. Mesmo que eu acredite que o homem não é um animal monogâmico e que traições são inevitáveis, não acredito que sair fodendo com tudo que se mexa (ou que não se mexa) seja o que nos satisfaça melhor, tampouco. 
    Ao mesmo tempo que temos a necessidade de nos aliviar com diferentes parceiros, pelo propósito original, a nossa razão não se contenta com somente isso também, e precisa de afeto e atenção. Viveremos num eterno conflito desse propósito com a convenção social, que da forma que existe, não nos garante possibilidade de felicidade. Enfim.
    Gostaria de saber dos senhores se viver é sofrimento ou é felicidade, e se isso está relacionado com as suas vontades de ter ou não filhos. Também, se existe algum motivo para o qual possam querer ter filhos.
Um abç.
N.B.

P.S.: Não estou deprimido.




sábado, 14 de julho de 2012

Hipoteticamente falando

    Um dos poucos argumentos que ouço na repreensão dos relacionamentos homossexuais, e que não se baseia em delírios religiosos, é o da extinção da raça humana. Dizem que se a homossexualidade fosse uma regra, estaríamos extintos em alguns anos, pois nossas relações não geram descendentes.

    Cabe a esse argumento a classificação de hipótese. Nela, propomos uma ideia que deverá ser testada para se observar os resultados e, numa (rara) discussão séria e formal, não se deve usar isso como um argumento, como se fosse o único fato que poderia ser observado. Se todos fossem homossexuais, devemos nos perguntar como a sociedade se organizaria. Teríamos sítios de reprodução ou recorreríamos à clonagem? Ou simplesmente facilitaríamos a questão da barriga de aluguel, para os casais gays, e bancos de esperma, para os lésbicos?

    Não faz sentido usar uma hipótese como um argumento porque os resultados não são conhecidos. A outra parte poderia muito bem dizer que se todos fossem homossexuais, todos seriam ricos, felizes e teriam 5 filhos pelos métodos descritos acima. Isso com a mesma credibilidade da hipótese da extinção da raça humana, porque os resultados também são desconhecidos.

    Não existe motivo sério e observado que sustente a premissa de que um relacionamento homossexual é menos 'correto' do que outros. Nota-se que os outros argumentos usados por defensores de políticas anti-gay são também hipóteses. Dentre elas, as mais famosas são: “se dois gays se casam, logo estarão casando crianças, animais, objetos, etc”, ou “gay não tem lugar no céu”. De início (e às vezes no meio e fim), faz sentido para alguém que ouve e não indaga sobre os outros possíveis resultados. 

    Essas besteiras se difundem no meio mais maleável da massa, que toma as hipóteses como verdades, e as usam para tomar uma posição sobre esses assuntos, por preguiça de pensar mais além sobre as levianidades que ouvem. E dá no que dá...

sábado, 30 de junho de 2012

Do colorido para o cinza

Muitos leitores daqui tomaram conhecimento da confusão que rolou na Câmara dos Deputados nesses últimos dias, por conta de um projeto de decreto legislativo que se propõe a interferir no Conselho Federal de Psicologia. Alegando liberdade de expressão e o direito do paciente de requisitar o tratamento que ache adequado, as propostas querem duas coisas: permitir que psicoterapeutas possam trabalhar com reversão de sexualidade, caso a pessoa manifeste este desejo, e deixar que esses "profissionais" propaguem suas ideias à respeito da diversidade sexual como um transtorno psicológico e não algo natural. Imagino como os senhores (e senhoritas) ficam indignados lendo sobre isso. João Campos, Jair Bolsonaro, Myrian Rios e Marisa Lobo são pessoas que machucam e despertam nossos piores sentimentos com seu ódio desenfreado e sua ignorância diante da população homossexual.

Mas precisamos perceber que essas figuras não estão distantes de nossa realidade como imaginamos. E quando o Bolsonaro é o seu pai? Ou seu melhor amigo, seu colega de trabalho ou qualquer outra pessoa que convive com você? Sinceramente, o que mais me preocupa nem é o projeto em si, porque tenho certeza de que não será aprovado. O pior é existirem pessoas com essa mentalidade. Por preconceito, ignorância, fundamentalismo religioso, falta de senso crítico e medo, condenam a diversidade sexual com base em argumentos pífios. Precisamos tirar as pessoas que valem a pena desse abismo de intolerância. É uma luta.

A minha luta começou há três anos, na Quarta-Feira de Cinzas de 2009. Já comecei a contar esta história no blog e quero retomá-la, porque acho necessário e importante. O primeiro post começa aqui. O outro é este daqui. Tiveram outros, sobre alguns temas e pensamentos, mas sem retomar os acontecimentos.

Era uma manhã que parecia um dia comum. E, como de costume, eu estava acordado muito cedo. Sempre levantei seis, sete da manhã. Nunca curti muito o carnaval, geralmente eu vou vários dias para o cinema ou faço programinhas lights com os amigos. Tinha uns dois meses que eu namorava o Roberto, um garoto mais velho do que eu, super afeminado, com bom coração, mas que estava perdido quanto a seu futuro profissional. Hoje entendo isso como um erro que teve consequências ruins, mas nos deu mais amadurecimento.

Na véspera, saí com amigos meus e o encontrei, com seus amigos, no Recife Antigo, que é a parte "velha" da capital pernambucana e funciona como uma espécie de sítio histórico. Em datas comemorativas, o Marco Zero e a Praça do Arsenal, locais turísticos, concentram boa parte das programações culturais e festas. Lembro que tivemos um desentendimento e brigamos sobre ele beber demais, fumar cigarro e ter uma alimentação ruim. Passou mal e precisou ser socorrido para um posto médico, montado naquele espaço.

No dia seguinte, de manhã cedo, tivemos uma DR pela internet, quando o MSN ainda era mais popular que o chat do Facebook. Como demorei demais e, por incrível que pareça, eu iria trabalhar naquele dia, acabei saindo às pressas e não me despedi direito. Corri para o banheiro e bateu um sexto sentido.

Lembrei que não peguei meu celular. Minha mãe, naquela época, invadia muito minha privacidade. Às vezes, eu a flagrava examinando quanto dinheiro tinha na minha carteira ou mexendo no meu celular. Sempre era motivo de discussões, mas eu não tinha maturidade o suficiente para saber impor limites e me livrar disso. Para a minha idade, eu ainda era muito controlado pelos meus pais. Por conta disso, precisava trabalhar álibis, mentiras, jogar fora papéis de nota fiscal, combinar histórias com meus amigos e apagar mensagens. Uma vida que no começo parecia divertida, mas eu já estava muito cansado de mentir o fingir o tempo todo.

Comecei a me despir e entrei no banho. Na minha cabeça, passou a hipótese de que Roberto mandaria mensagens para meu celular porque eu não me despedi direito. Pensei em minha mãe pegando ele e lendo tudo. Ela poderia estar naquele momento com meu pai, escandalizada. Minha farsa iria por água abaixo. Seria desmascarado!

Foi um daqueles pensamentos que estão lá na sua cabeça mas você não quer acreditar. Ainda assim, eu pensei que não voltaria ao quarto para pegar meu celular e deixá-lo comigo. Assumi os riscos, mas sem acreditar que algo pudesse, de fato, acontecer.

Terminei o banho e voltei para o quarto. Coloquei uma roupa e percebi que meu celular não estava ao lado do computador, onde normalmente eu deixo. Mas como sou esquecido, abri as gavetas, olhei dentro do calção que usei antes do banho, procurei em cima da cama e nada.

Isso tudo foi muito rápido, questão de um ou dois minutos. De repente, eu me dei conta de um silêncio terrível em casa. Voltei para o corredor e girei a maçaneta do quarto dos meus pais. Não abriu. Estava trancada.

Naquele momento eu tive a certeza do que estava acontecendo.

Senti meus pulmões ficarem sem ar. Senti também um aperto no coração e um estado de torpor, de medo. Ouvi passos pesados. Minha mãe sempre andou pela casa pisando no chão apoiando os pés com os calcanhares, produzindo uma marca sonora inconfundível.

Quando ela destrancou e abriu a porta, estava com uma expressão de raiva, os olhos vermelhos e lágrimas nos rostos. Na sua mão, a prova do crime: meu celular. Atrás dela, meu pai, olhando em outra direção, para a parede, com os braços cruzados. Parecia pensativo.

Ela começou a perguntar com raiva que mensagens eram aquelas no meu celular. Não sei o que ela queria que eu respondesse, até porque ela quem viu as mensagens, eu sequer sabia do conteúdo. Não lembro bem dessa parte, o que ela falou, mas lembro que eu disse que era um amigo que gostava muito de mim. E ela perguntou, áspera, que amigo era esse que falava "eu te amo", entre outros adjetivos que denunciavam tudo.

Percebi que não tinha para onde correr. Eu até poderia inventar uma história mirabolante, mas tomei um caminho mais digno. Virei as costas e bati no quarto da minha irmã, Juliana, que abriu meio desorientada de sono. Ela sabia de mim há poucas semanas.

- Me ajude, painho e mainha acabaram de descobrir.

Minha mãe veio atrás de mim e perguntou:

- Meu filho, você é gay?
- Sou.

Ela colocou a mão na boca e voltou para o quarto dela. Fui atrás, com Juliana. Ela e meu pai sentaram no chão, Juliana sentou na cama e eu também. Ninguém chorava. Acho que eles não conseguiram digerir a informação.

Tomei a iniciativa e comecei a contar tudo. Falei dos sentimentos quando era adolescente, das primeiras paixões, de como eu estava triste em precisar mentir e esconder aquilo tudo deles, mas que as coisas iriam ficar bem, que eu amava muito eles e precisava de compreensão.

Lembro que em dado momento meus pais começaram a chorar muito e se abraçaram. Lembro de minha mãe gritar que queria que aquilo fosse um sonho, um pesadelo. Meu pai se lamentou por ter dado tanta educação, boa condição de vida e aquilo estar acontecendo.

Minha irmã chorava calada.

Eu não consegui. Acho até que eu estava sorrindo. Sentia um peso enorme sair das minhas costas. Independentemente de aceitação ou rejeição, tinha ultrapassado uma grande barreira. Estava com a alma leve.

Falei que tinha um namorado, sem entrar em detalhes. Minha mãe, certa hora, chegou a dizer que isso era pior que ter um filho drogado, porque o filho drogado podia ter um tratamento. Aquilo me magoou demais e remoí isso por muito tempo.

Lembro também que eles perguntaram sobre sexo, sobre o que tinha acontecido. E eu falei que já tinha feito sexo oral. Quiseram saber se eu fiz ou se fizeram em mim e eu respondi que "os dois". Não estava para mentiras nem omissões.

Meu pai disse, uma hora, que aquele sem dúvida era o pior dia da vida dele e nunca ia conseguir esquecer.

Eu falei que queria ter contado antes, pedi desculpas pelas mentiras e disse que levaria tempo para eles me entenderem, mas eles iam perceber que não era pecado, que não era nada errado e que eu era normal. Sei que eu também disse que eles iam passar por várias fases até me aceitarem, que eu tinha lido, que eu imaginava a reação deles e para eles saberem que não têm culpa de nada, que eram ótimos pais.

Não fui trabalhar naquele dia. Eles me forçaram a telefonar para meu chefe e falar que estava doente ou alguma outra desculpa qualquer. Passei o resto do dia quase todo trancado no quarto. Um turbilhão de coisas passavam pela minha cabeça.

Era só o começo.

(Continua...)

* A título de curiosidade, este post levou duas horas e meia para ser escrito







* Desconsiderar slides toscos. Não sei por que as pessoas fazem isso =/

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Boladão

    Quando era mais novo, e um pouco mais bobo, lembro-me de ter ficado curioso ao ver que os pênis dos homens que eu via em fotos ou videos, americanos em sua maioria, eram tão diferentes do meu. Estaria tudo bem se fosse só um caso, afinal, ninguém é igual a ninguém, mas os seus pênis seguiam um padrão. 
    Eu já havia tido contato com outros pênis, desde muito cedo, com coleguinhas em situações sortidas, das quais me absterei dos detalhes. Inevitavelmente, havia a observação e comparação, o que me deixava mais aliviado ao ver que os nossos seguiam o mesmo padrão, mas ainda diferente dos atores americanos. Nunca havia questionado isso com ninguém, afinal, soa suspeito para o rapaz que assiste pornô e presta atenção do pênis ao invés da mulher.
    Ao longo dos anos, as coisas foram ficando mais claras, com o advento da circuncisão ao meu vocabulário, a qual alguns dos meus amigos foram submetidos. Um deles até ficou com o apelido de fimose desde que sofrera a operação, aos 13 anos, eu acho. Daí, era uma questão de tempo até ligar os pontos e perceber que os pênis dos modelos e atores que eu via eram, também, circuncidados. A questão era, porque existiam tantos pênis assim, se a única razão que eu conhecia para fazer o procedimento era a famigerada fimose que apenas uma parcela mínima dos meus amigos tinham?
    Depois de algum tempo e pesquisa, descobri que era uma coisa cultural, e me adentrei mais no assunto. Gosto muito de me referir aos EUA (_de novo, N.B.?), como uma sociedade muito interessante, bem sucedida, onde tem-se liberdade de pensamento, de negócio e democracia, mas com algumas anomalias épicas que contrastam escandalosamente com sua imagem de país desenvolvido e moderno. 
    A história da circuncisão é antiga, e faziam-na desde muito tempo antes da descoberta do Novo Continente, por motivos higiênicos e religiosos. Ela é obrigatória (estou aberto à correções) para judeus, muçulmanos e alguns cristãos que queiram seguir as escrituras estritamente, pelo acordo de Jeová com Abraão (ver Gênesis 17:10). Quanto à higiene, eu assumo que, como antigamente não havia Dove Fresh e nem o costume de se lavar todos os dias, o prepúcio facilitava o aparecimento de infecções e mau cheiro.
    Se por um lado os motivos que levam a maioria dos americanos a circuncidarem seus filhos não é religioso, por outro o real motivo é mais desnexo e doentio que esse. Sabe-se que apenas uma ínfima parte dos americanos são judeus ou muçulmanos e não chegam a 3% somados, enquanto aproximadamente 80% dos homens são circuncidados (mapa legal).
    Em algum momento da história dos povos que deram origem aos americanos atuais, houve uma massiva campanha moral anti-masturbação, lá pelo século 18. Para completar, alguns doutores vieram com a ideia que a forma mais eficaz de se evitar que um menino explore seu corpo com mãos, é fazer com que isso não seja atraente. Quando se corta o prepúcio, a glande fica completamente exposta ou pouco coberta, fazendo com que o prepúcio fique justo demais ao corpo do pênis e a masturbação seja desconfortável. A masturbação com o pênis circuncidado é feita com lubrificantes, em alguns casos.
    Hoje, continuam-se circuncidando os meninos, não por motivos de prevenção de infecções e nem para se evitar a masturbação, mas simplesmente por inércia. Alguns dos pais dizem que querem que seus filhos sejam iguais aos pais, ou que eles sofreriam preconceito dos coleguinhas se fossem diferentes. Motivos bobos à parte, também li que algumas mulheres (inclusive mães a favor) preferem o pênis circuncidado. Porém, não peso muito esse lado por ser o gosto uma questão individual, mas isso priva o bebê da escolha.
    O procedimento é horrível. Eu tenho um lado obscuro em mim que procura vídeos perturbadores na internet, e hoje assisti um bebê sendo circuncidado. O procedimento é feito sem anestesia, por algum motivo que ainda pesquisarei para colocar aqui. Preciso confessar que este é um dos vídeos mais perturbadores que já assisti e entrou para o meu top 10 de vídeos desse tipo. Eis o motivo que escrevo esse texto (para quem tiver estômago forte, link aqui).

    Felizmente, hoje, existem campanhas e grupos que defendem o fim desse procedimento que não sejam por motivos de saúde. Como não é reversível, alguns defendem deixar o menino crescer e decidir por si próprio, além dos argumentos usados sobre o risco do procedimento como perda de sensibilidade pela queratinização da glande, cicatrizes inevitáveis e enormes, deformações em alguns casos e trauma. Submeter o bebê a esse procedimento torturoso, em favor da estética dos pais e da tradição, não me parece muito diferente dos rituais de mutilação genital que ocorrem na África. 
Esses americanos...
E o que os senhores pensam sobre a circuncisão por motivos estéticos?
Um abç.
N.B.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sobre corações gelados e ursinhos carinhosos

    Hoje é aquele dia em que vejo casais se abraçando e se beijando por todos os lados, e a única coisa que passa na minha cabeça é 'eca, casais...'
    Não que eu tenha inveja (aham), e pra falar a verdade, eu nunca me importei muito com essa data. E não me importo ainda. Escrevo hoje, extraordinariamente, para quem se importa e se encontra desanimado para encontrar um namorado (ou namorada). 
    Não sou uma referência de pessoa namorável que permanece solteira. Alguns dos senhores as vezes me mandam mensagens e comentários dizendo que estão se sentindo sozinhos e perdidos à medida que o tempo passa por não conseguirem encontrar um namorado, mas a minha situação não me dá muita credibilidade para dar conselhos sobre o tema, afinal, nunca consegui manter nenhum relacionamento. Mas se não posso dar conselhos, então que sejamos companheiros no drama, se isso alivia o fardo! 

    Meus amigos dizem que sou egomaníaco. Talvez isso tenha alguma influência sobre minhas tentativas frustradas de relacionamento, ou sobre eu não me importar com a data. Ultimamente, a ideia de ficar sozinho não me assusta, isso porque ainda ainda debato se o amor (daquele tipo que dizem eu saberei quando sentir) existe ou não. Talvez eu apenas não tenha experimentado o "verdadeiro" amor, e por isso me mantenho cético. Ou tenho dificuldades de gostar de alguém o tanto quanto gosto de mim mesmo, o que torna os meus associados dispensáveis. Ou talvez o amor não exista realmente, e seja uma forma mais bonita de chamar e de se convencer da acomodação com alguém conveniente. Ou uso isso tudo como desculpa para mim mesmo, pois não nego que espero ansiosamente pelo dia em que eu vou achar a minha metade do limão. Mas eu divago, azedo.
    Recalques à parte e tomando riscos nos conselhos, encontrar alguém é uma questão de se abrir às novas pessoas, uma questão de tempo e de oportunidade. Antes que se martirizem por acharem que não são bons o suficiente (ou que são bons demais em alguns casos :P), tenham paciência e deem-se a oportunidade!
Aos sortudos que já estão num relacionamento, estável e respeitável, minhas felicidades =) E compartilhem o segredo da estabilidade!
Um abç.
N.B.
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     Sim, é mais uma data extremamente comercial onde as lojas e o capitalismo malvado querem comer o dinheiro de vossos bolsos. Já pensei muito nisso e ainda acho que faz sentido. Talvez vocês também pensem assim. Mas, se formos analisar qualquer festividade com esses olhos, sequer faria sentido comemorar aniversário na mesma data, já que o ano nunca encerra seguindo um ciclo certinho de dias. Sobram horas, entra o ano bissexto e, no fim das contas, quem sabe realmente quando completamos mais um ano de existência?
    Atribuímos significados às coisas e é assim que o mundo vive. Vou passar o segundo dia dos namorados com meu namorado atual e talvez seja o terceiro de toda a minha vida. Não vou dizer que entrava em depressão e queria rasgar os pulsos quando estava solteiro, mas batia aquela vontade de estar com alguém.
    E já estive com vários alguéns que não valiam merda. Como diz o velho ditado, antes só do que mal acompanhado. Ou mal casado. Então vou fazer uma proposta que serve tanto para solteiros como comprometidos: namore você mesmo. Tenha amor próprio. Sem ele, ninguém vai gostar de você. Afinal, se nem mesmo conseguimos nos resolver, o que esperar de um intruso? 
    A vida é uma só e está aí para ser curtida na base da tentativa e erro. Vale ter medo, vale ter coragem, vale se arrepender e também vale ter certeza dos momentos. Às vezes sabemos o que queremos e às vezes não. Mentir faz sentido quando você engana alguém. Mas tentar mentir para você mesmo é fazer papel de bobo. 
    Sejam loucos, se for necessário. Superóxido dismutase. Sempre quis escrever isso em algum texto. Viram?
Amor próprio, acima de tudo. Merecemos ser felizes. Então, amiguinhos solteiros e comprometidos, viva o cinco contra um!

Lucas


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Insanidade institucionalizada

    Na semana passada o personagem da DC Comics, Lanterna Verde, foi declarado gay pelos autores da sua revistinha. Nessa mesma semana, um estado americano (North Carolina) se juntou a uma lista de outros 30 estados que tem leis contra o casamento do mesmo sexo. Percebam que não é somente a falta de regulamentação para o casamento entre pessoas do mesmo sexo e sim uma lei contra. Sabe-se, porém, que EUA são um país cristão conservador e isso os torna um bom exemplo da influência da religião nos assuntos de estado e na liberdade da população. Enfim.
    Eu gosto de ler os comentários em notícias relacionadas aos gays, como essa do Lanterna Verde, para ver a média das reações. Às vezes pulo direto para os comentários, sem mesmo ler a notícia, para sentir o clima e me divertir com as discussões descabidas, ou ter uma dose de indignação. Creio que todos aqui já tiveram a oportunidade de acompanhar esses comentários e, frequentemente, encontro um comentarista (ou muitos) profetizando sobre o fim dos tempos. Esta na moda dizer que os tempos estão chegando ao fim ou é impressão minha?
    Observando esses comentários (especialmente no G1, que eu acompanho quase todo dia), percebi que grande parte dos que fazem repreensão nas notícias relacionadas aos gays usam argumentos religiosos, e aproveitarei essa oportunidade para falar da influência da religião organizada sobre a liberdade sexual, além de fazer propaganda. Religião organizada porque essa é a forma de religião realmente nociva, não somente aos gays e outras minorias, mas ao mundo inteiro, passível de controle e manipulação, como observamos nos canais de exorcismo de pobres mulheres pobres e de venda de canetas ungidas para concursos.  
    Creio ser de comum senso que a religião organizada tem uma má influência sobre o preconceito contra os homossexuais, e isso é suficiente para explicar porque alguns homossexuais tomam posição anti-religiosa. O argumento mais básico que as pessoas desses comentários usam é que não é uma coisa permitida por Deus, afinal, já se dizia em Levítico 18:22 que o homem que se deita com outro homem como se fosse mulher é uma abominação. Pois então, ninguém gosta de abominações. 
Não tenho certeza que esta poderia ser considerada a fonte mais poderosa do preconceito contra homossexuais. Já relatei muitas outras fontes ao longo do blog, como o machismo (mesmo que o machismo também tenha uma parte de sua origem nas religiões paternalistas, afinal, Eva condenou toda a humanidade ao comer a maçã e por isso é inferior), ou a ameaça à sensação de segurança pela mudança do conhecido, ou a questão da nação forte com braços trabalhadores que os relacionamentos homossexuais não produzem, dentre outras, mas não dei prioridade a nenhuma. 
    A vontade de deus é um argumento é irrefutável pois ele é o dono do universo e devemos a ele nossa eterna gratidão pela criação. Se a bíblia exprime a vontade de deus, estamos automaticamente condenados por sermos homossexuais, e é difícil argumentar contra uma 'lei', ou contra a verdade divina. Pelo menos não seremos condenados sozinhos, pois quem come carne de porco, ou quem corta os cabelos também o está. Leiam o capítulo de Levítico, é o mais engraçado da bíblia.
    A forma mais fácil (talvez a única?) de responder à bíblia é assumir que ela não é nada além de um apanhado de contos de muito mau gosto. 
    Para mim é fácil pensar assim. Eu já me pronunciei acerca da minha crença por aqui e não escondo de ninguém que sou ateu - exceto quando minha mãe me pede para fazê-lo. Segundo ela, eu não deveria divulgar aos nossos parentes que “eu não rezo”, pois “é feio”, e preciso confessar que já choquei algumas pessoas com a minha descrença. Não gosto de usar este espaço para discutir crença. Crença é crença, e não se discute, por mais infantil, ilógica e prejudicial que ela seja, mas estamos aqui a refletir sobre os efeitos da crença.
    No Brasil, não existe religião organizada (significativa) que pouco se importe com os gays. Não adianta apenas deixá-los viver em paz, é preciso dizer que eles são perversos e quem é conivente com esse “comportamento” é tão pecador quanto o homossexual. Dessa forma, um meio que se auto-proclama difusor do amor entre os homens é o primeiro a separar e causar o ódio. Não entendo porque a crença, que devia ser tão pessoal, possa ditar tanto como vivemos. 
    Nas minhas viagens psicodélicas sempre chego a duas conclusões e ambas me assustam: eu ou o mundo está completamente louco. Egomania à parte, acredito que seja o mundo. Para mim, não há diferença entre a bíblia como prova da existência de deus, e a revistinha do Homem Aranha ou do Lanterna Verde, como prova das suas existências. 
    Me soa como uma insanidade indescritivelmente absurda que muitos dos nossos costumes, tabus e problemas existam devidos a um livro que tem tanta credibilidade de ser real como as revistinhas que mencionei. É interessante e triste ver como vivem as pessoas nos lugares onde se legisla pelos seus livros sagrados. Para mim, também é uma insanidade acreditar que um ser invisível te assiste 24 horas por dia das nuvens (esquizofrenia), que cria os problemas e soluções na sua vida, e se você não se comportar como ele quer, você será enviado a um lugar para sofrer por toda eternidade, apesar do seu amor.
    Se supusermos que Deus existe por um minuto, e que ele é exatamente como diz a bíblia, omnisciente, omnipresente e omnipotente, e existe desde o começo dos tempos até o infinito, porque uma criatura desse tamanho iria se preocupar se alguém tão pequeno aqui na terra o adora ou não? Se ele é tão poderoso, porque não derrota o mal de uma vez? Se ele é tão bom, porque crianças morrem de fome ou violentamente? Se ele sabe de tudo, porque não alivia nosso sofrimento?
    Oras, uma célebre hipótese diz que isso tudo é um teste. Porém, essa hipótese garante ao criador o título de sádico, por saber das necessidades, ter o poder e não intervir. Não tenho certeza que um ser assim seja digno da minha simpatia.
Religião existe para responder aos aflitos sobre as questões que a humanidade ainda não entende. Antes tínhamos deuses para os raios, para o Sol, para a chuva. Hoje temos um Deus para punir os homossexuais, além de nos salvar da morte e nos garantir vida eterna.
    Eu por outro lado, me assusto com a eternidade. Imagine o que é a razão vivendo para sempre, sem a possibilidade de interromper sua existência, mesmo que num lugar agradável como o suposto céu cristão, ou o muçulmano, ou Valhalla nórdico. Tenho medo do tédio eterno, num ponto da existência em que nada é mais novo, o que me parece um tanto como tortura eterna. A ideia de ter a existência interrompida não me assusta, e não deveria assustar a ninguém. A vida da qual se obtém prazer é essa, e deve-se viver sem medo de ser feliz ou medo de ser repreendido por forças invisíveis. Cada um pode ter sua crença, mas no momento em que se escolhe um líder, tão humano quanto qualquer pessoa, para guia-los no caminho da salvação, é assinar o próprio atestado de ingenuidade. 
    Eu tenho minha ideia de deus. Apesar de a ciência estar caminhando para explicar todo o universo, existe uma questão que demorará um tempo maior que minha passagem pela terra para ser respondida. Porque estamos vivos?
    Transcendendo o tópico, eu acredito que existe sim uma força que deu origem ao universo, mas ela não tem consciência, não tem forma e portanto não sabe da existência da vida, como nós. Alguns chamam essa força de deus. Existe um teorema da física que diz que massa pode ser transformada em energia, e vice-versa. Se essa força sempre existiu e o universo foi originado dela, nós também fomos, o que significa que o universo é deus e nós somos parte dele. Em outras palavras, deus somos eu e você, ou pelo menos uma parte dele. Mas eu divago, transcendentalmente.
    Sei que a maioria dos visitantes aqui são religiosos, mas deixo a questão: qual  vossa ideia de deus? E o que vocês acham sobre o posicionamento das religiões organizadas ao colocar a homossexualidade como algo não aceito por deus? Concordam ou não?

“Não há necessidade de templos, não há necessidade de filosofias complicadas. Meu cérebro e meu coração são os meus templos. Minha filosofia é a bondade”.

Um abç.
N.B.



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