Google+

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Espaços, gêneros e eufemismos

    A vida em uma república tem suas vantagens em relação a morar com a família. A parte que mais gosto é a premissa do espaço inviolável: uma porta nunca é aberta sem a explícita permissão do dono do quarto, e isso não causa estranheza, enquanto na casa dos meus pais eu nunca tive o costume de fechar a porta do meu quarto, e esse simples ato agora causa estranheza para eles. Imagino que meus pais devam sentir isto como um ato de isolamento, mas é apenas a minha necessidade de ter e usar um espaço onde posso me concentrar em coisas minhas sem ter a preocupação de ser interrompido quando alguém se sente no direito de entrar no quarto sem bater. Preciso de um lugar onde eu sou a autoridade. Nessa brincadeira, minha irmã já me pegou trocando de roupas, o que me deixa extremamente desconfortável quando se trata de família, apesar da insistência de minha mãe de que é bobeira. 
Em um dos momentos em que me senti sufocado, despejei meu discurso pré-preparado sobre o direito a ter meu espaço inviolável, e que eles deveriam esperar minha permissão para entrar no quarto, mesmo depois de bater. Percebi que essa ideia de privacidade e respeito de espaços era inexistente na minha família, e que o meu discurso fez parecer que faço algo de errado dentro do quarto. Pela sensibilidade ao assunto que minha mãe demonstrou, acho que ela considerou que uso drogas, ou que vejo pornografia, ou que me masturbo o tempo todo. Mas eu divago.
    Em BH, eu moro numa república com mais três amigos: dois dos quais conheci em BH mesmo, e um que já conheço desde meus tempos de ensino médio, há 9 anos. Este amigo mais antigo, em especial, é um dos mais próximos que cultivo por tanto tempo, tanto pelas circunstâncias, quanto pela qualidade da amizade. Sempre tive uma desconfiança de que ele também é gay, por uma série de motivos. Uma desconfiança que eu seria capaz de apostar todo o meu dinheiro em afirmar que sim: ele é. 
    Muito recentemente, ele me ligou dizendo que precisava conversar, e que pelo teor da conversa, seria preferível que fosse em pessoa. Durante nossa conversa, ele discorreu sobre algo que o causava um sofrimento profundo, o tirava a concentração e eu seria a segunda pessoa a saber. 
    Analisando este discurso, logo comecei a deduzir o que parecia óbvio, mas deixe-o falar me fazendo de desconhecedor dos fatos.
Ele_ Então, NB... você quer adivinhar do que se trata?
Eu_ Prefiro não...
Ele_Ah, tenta! É engraçado ver as respostas! (imagino que ele fez a outra pessoa adivinhar também)
Eu_ Ah, não sei... Você tá triste porque não consegue bater meu recorde no Flappy Bird? (Eu estava fazendo rodeios mesmo, pois não queria falar o que já estava óbvio)
Ele_ Deixa de bobeira, menino. Outra chance, vai!
Eu_ Não, pode ser engraçado pra você mas não é pra mim. Fala de uma vez.
E sem mais rodeios, ele falou:
_Então, NB, é porque eu estou gostando de um cara que mora com a gente...
    Eu estava preparado para fingir uma certa surpresa quando ele me dissesse o que eu esperava ouvir, mas preciso admitir que aquilo me pegou desprevenido e eu não precisei fingir. Comecei a rir descontroladamente, fiquei sem reação, e senti que ali uma etapa foi pulada. Pensei comigo mesmo que ele deveria me contar que gosta de rapazes antes de dizer que gosta de um dos nossos colegas de apartamento, e percebi que o sofrimento que ele vinha sentindo não era sobre uma questão de identidade sexual, e sim o sofrimento de um amor platônico. 
    Depois de tomar um tempo para me recompor e formular algumas frases, perguntei se ele achava se a paixão era realizável, sendo bem polido e contido, já que esta era a primeira vez que conversávamos sobre romance em quase uma década.
Ele_ Como assim?
Eu_ Se ele é gay também...
Ele_ Já conversei com ele sobre algumas coisas desse tipo, e tenho certeza que ele, assim como eu, também 'não se importa com gênero'.
    E essa expressão me chamou a atenção. O meu primeiro pensamento sobre a expressão que ele usara para se referir a ele e a sua paixonite era de que ele ainda não estava preparado para se afirmar como um homem gay, e por isto procurou um eufemismo (não se importa com gênero) para caracterizar a si e o nosso colega de apartamento. 
    Naquele momento, naqueles microssegundos que se passaram na minha cabeça entre o término da fala dele e o começo da minha, debati comigo mesmo se eu daria ênfase naquela expressão, criando um discurso de aceitação para ele se afirmar como gay e o incentivaria a deixar eufemismos de lado, pois quanto mais cedo uma pessoa abraça o que se é, mais chances ela tem de parar o sofrimento. 
    Acabei deixando-o exercer seu direito de se definir como quisesse, para depois perceber que fiz a escolha correta. Falei apenas o básico sobre ajudar no que for preciso, e que ele precisa conhecer mais pessoas, abrir possibilidades e manter a mente ocupada para não ficar pensando no nosso colega o tempo todo, e esqueci o eufemismo por um tempo.
    Alguns dias depois, porém, aquilo me voltou à cabeça. Passei um tempo refletindo sobre o motivo que ele se definiu como uma pessoa 'que não se importa com gênero', já que ele parecia muito bem resolvido quanto àquele assunto.
    Apesar da minha desconfiança de que ele estava se sentindo inseguro para se afirmar gay, percebi que a forma que ele havia se definido era muito mais sensata do que a que eu estava disposto a acusá-lo de ser, e acusá-lo de negar. Esqueci de considerar que ele poderia estar sendo honesto comigo e consigo mesmo ao não se definir como gay. Ao se definir como uma pessoa que não se importa com gênero, ele transcendeu a sua prioridade para além do corpo. Ele quer se apaixonar pela pessoa, pelo que ela representa para ele. Se definir como gay é fechar a possibilidade de isso acontecer com uma mulher, e fechar possibilidades geralmente é uma má escolha. (Nessa mesma linha, se afirmar gay seria uma forma de machismo, no sentido segregacionista, e isto seria paradoxal... mas eu divago de novo.)
    Um exercício de reflexão: se você encontrasse o amor da sua vida, será que você deixaria de se apaixonar se ele fosse uma mulher? Será que o corpo e gênero devem ser a prioridade para dizer quem será a pessoa com quem passaremos nossos melhores momentos?
    Aquilo, que me pareceu um eufemismo usado para se sentir mais confortável na conversa, passou a me parecer a melhor definição de sexualidade que já tive a oportunidade de conhecer.
Tão adequada, tão direta, e tão honesta. 
"Eu não me importo com gênero. Eu me importo com pessoas."
Um grande abç,
NB.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Histórias particulares 01

    Vez ou outra nos sentimos perdidos na vida, sozinhos, com dificuldades de entender o mundo e de fazer o mundo nos entender. Uma ferramenta importantíssima no exercício de sair do poço de lamentação e angústia profunda que muitos homossexuais se colocam é saber que existem outras pessoas que passam exatamente pelos mesmos problemas que nós.
    Eu tenho o privilégio de receber inúmeras histórias pelo email de contato, e isto me abre a cabeça aos problemas alheios e me ajuda a ter um sentimento melhor sobre o que significa ser um homossexual reprimido no Brasil.
    Com a permissão do remetente, compartilharei uma destas histórias e, desta forma, inaugurarei uma seção de publicação de diferentes histórias que podem ser bastante proveitosas, tanto para quem escreve e quanto para quem as lê. Se você tiver interesse em ter sua história publicada, envie-a para o meu email  =) 
    Neste texto específico, o autor deixou-se consumir por um medo exagerado que o levou a ter pensamentos e comportamento auto-destrutivos. O desenrolar da história contrasta este medo que havia criado um monstro em sua cabeça com a leveza das consequências que ele dificilmente cogitara. 
------------------------------------------------

Bom dia/tarde/noite, senhor N.B.

Bem, como eu disse no outro e-mail – 500 anos atrás -, faz tempo que quero te mandar um falando sobre... Ah, sobre mim (você disse que gosta, então aguenta) kkkkkkkkkkkkkkk

Ficou enorme, desculpe...

    Sou o Matteo (nome fictício), moro no Velho Oeste Paulista (tem muita briga por terra aqui, o MST é bem ativo nessa região, e existem pistoleiros e toda aquela raça de latifundiários milionários e ladrões).
    
    Nasci na região metropolitana de São Paulo, mas meus pais vieram pro interior quando eu tinha só 2 anos, então me sinto como se tivesse nascido aqui mesmo. A cidade tem muitos velhos e estudantes (3 universidades e 1 faculdade); nas férias vira um paraíso da terceira idade, porque todos os estudantes voltam pra casa – é insuportável!
    Tenho 3 irmãs, uma mais velha. Não tenho irmãos, mas sempre senti falta de um irmão mais novo, a quem eu pudesse proteger, dar conselhos, ensinar coisas. Acho que é por isso que eu gosto de caras mais novos... Vai saber...
    Minha descoberta não foi assim rápida. Ao contrário da maioria dos meus colegas da escola, sexo só se tornou interessante depois dos 15 anos. Nessa altura eu já era excluído da maioria dos "ciclos hétero" da escola, e meus primos mais velhos já namoravam (até uns mais novos, confesso). Foi nessa altura que os bíceps começaram a parecem interessantes. Fiquei com medo logo de cara. O universo gay não era uma incógnita completa pra mim, havia muitos garotos assumidos pela escola, e o meu padrinho de batismo é gay; ainda assim, me assustei. Precisava desesperadamente me esconder. Foi nessa época que conheci Ana, minha melhor amiga desde então, e a primeira pra quem contei sobre a minha condição.
    Com 16 anos me matriculei num curso do SENAI-SP, porque já estava grandinho e meu pai queria que eu arrumasse um emprego, e eu precisava conhecer mais amigos homens pra aumentar o disfarce e, como só havia duas meninas matriculadas, pensei que seria perfeito. Mas eu odiei a ideia logo que entrei no curso. Não me adaptei a uma sala com 20 homofóbicos, uma garota e um único cara legal. Apesar disso, não quis dar o braço a torcer.
    Eu me sentia desesperado, não entendia porque aquilo estava acontecendo “logo comigo”, e comecei a me sentir culpado. Tratei logo de inventar “antigas namoradas” como disfarce. Por um lado, isso foi bom, porque eu podia conversar sobre sexo com as pessoas sem grandes constrangimentos, e eu li bastante sobre o assunto na época – adolescentes só pensam nisso (que horror/ delícia). O problema é que, como qualquer mentira, começou a fugir do controle.
    Na época, Ana estava em um relacionamento semi-secreto com uma garota (ela não é lésbica, foi coisa de adolescente mesmo), e eu via como ela era massacrada pelos comentários maldosos e até agressivos. Me escondia cada vez mais num mar de mentiras, sem conseguir emergir um pouquinho pra tentar uma vida mais feliz, por puro medo.
    Com o passar dos meses, alguns alunos do SENAI começaram a me perseguir por não ter namorada (sabe como é, né, ter namorada nesse país é dever constitucional), e a levantar suspeitas e insinuações. Eu já não aguentava a pressão em casa, na escola, no SENAI, na rua... Comecei a pensar em suicídio. Mas eu era fraco até pra isso. Me sentia horrível, abjeto, culpado. Meu pai começou a me pressionar, por que eu não aparecia com meninas em casa e minha irmã mais velha colecionava alianças. NB... eu realmente cheguei a tentar me enforcar uma vez, com uma corda numa edícula vazia no fundo de casa, mas fui fraco – ou forte – demais pra prosseguir... Contei pra Ana, aos prantos, o que eu havia tentado fazer, e ela tratou de me tirar essas idéias da cabeça (ela foi um anjo, sem contar que já havia passado pela experiência homo afetiva, além de ter um tio gay e uma tia lésbica, ou seja, vasta experiência no nosso mundo).
    Em novembro de 2008, voltava para casa de bicicleta, pensando em todos esses problemas, me martirizando com as dores do mundo. Chegando a um cruzamento de ruas no final de uma ladeira, simplesmente larguei os freios. Eu queria morrer, e simplesmente me entreguei. Um carro que cruzava a rua me acertou em cheio mas, como o motorista estava freando por precaução, apenas caí sobre o capô e rolei pra rua; me ralei e bati alguns ossos, mas nada de grave. Até hoje as pessoas acreditam na minha versão de que os freios falharam, e eu não contei a verdade nem pra Ana.
    Depois da formatura na escola, eu não sabia que rumo tomar. A ideia de suicídio tinha ficado meio esquecida, e eu queria fugir de casa, pegar a estrada e cair no mundo. Ana me salvou de novo e me convenceu a entrar pra Universidade – temos que garantir o nosso futuro, não é? -. Acabei conhecendo alguns gays assumidos e mais maduros. Eu ainda continuava escondido, mas pude notar que o preconceito agora era bem menor, e já conseguia conviver comigo mesmo. Encontrei seu blog no primeiro ano de faculdade, e foi uma luz na minha vida.
    Com 21 anos beijei um cara pela primeira vez – eu já havia experimentado com garotas na adolescência -, no Diretório Acadêmico, numa salinha escondida. Foi incrível, a confirmação que eu ainda esperava – esperava por quê? Estava na cara!
    Eu janeiro de 2013, meu pai me chamou pra conversar no quarto, e me mostrou alguns arquivos no PC que eu poderia jurar diante do fantasma de Freddie Mercury que havia excluído – sim, meu caro, ele fuçou e achou “aqueles arquivos”. Na hora do desespero, inventei a história mais fajuta do mundo. A abordagem dele foi toda errada, me colocou contra a parede e eu me senti acuado, sem saber o que fazer, só querendo fugir dali correndo e me atirar numa vala qualquer...
    A família dele sempre foi muito tradicional, meio militarizada, e mesmo demonstrações de carinho entre pai e filho eram mal vistas – eu nunca vi meu pai abraçando meu avô -, e esse contexto é que me deixou mais desesperado. Já me vi sendo escorraçado, espancado, posto pra fora de casa a murros e pontapés com a roupa do corpo, tendo de viver na rua. Imaginei minha família se desfazendo em brigas por minha causa, meu pai sendo preso por agressão, minha mãe hospitalizada e minhas irmãs mais novas sem casa e sem pais. Foi o caos, não sei como não tive um infarto na hora.
    Desesperado, corri pro meu anjo da guarda, Ana, pedindo socorro. Ela me deu o melhor dos conselhos: o melhor caminho é o da verdade. Em casa, chamei minha mãe num canto – a casa estava cheia de parentes, tios e primos – e tentei contar tudo pra ela, que já sabia a versão do meu pai. Foi a coisa mais difícil que já fiz, NB.
    Mesmo sabendo que ela já sabia, tive dificuldade pra falar: me faltava ar, a boca não articulava, o som não saía; o coração estava acelerado como o de um cão, a visão turva; tudo girava e comecei a perder o equilíbrio, mesmo estando sentado; quase sucumbi naquela hora; senti que estava sendo desfeito. Eu realmente não desejo essa sensação pra ninguém. Com a ajuda dela e muita dificuldade, acabei conseguindo contar e desabei em choro, no ápice das emoções conflitantes que me cercavam. Ela, então, me abraçou dizendo: “Eu sei, meu amor, eu sei! Porque você demorou tanto pra se abrir comigo?”. Entre soluços, respondi que tive medo. Então ela disse: “Medo de quê? Eu sou sua mãe, te amo mais que a mim mesma independente da sua natureza! Você é meu filho e eu te amo”.
    NB, chorei feito um bebê. Me aninhei nos braços dela e a abracei com força. Era inacreditável que minha mãe estava aceitando ouvir uma confissão dessas do único filho homem com tamanha naturalidade! A emoção foi tão forte que acabei dormindo no colo dela, como há anos não acontecia.
    Quando anoitece, meu pai chegou do trabalho e minha mãe foi direto com ele pro quarto. Depois de alguns minutos, ela me chamou pra dentro e saiu, me deixando sozinho com ele. NB, eu já sabia o que fazer, havia feito isso horas antes, e ele encontrou provas cabais do que eu tinha a dizer. Ainda assim, foram as mesmas sensações e emoções de antes: boca travada, coração acelerado, tonteio, tudo. Mas me esforcei e consegui falar. Ele me disse que a relação com o pai dele era horrível, tinha sido horrível a vida toda, e que ele havia jurado pra si mesmo tentar ser um pai melhor que o dele, na medida do possível. Ele e minha mãe já haviam conversado sobre mim, e ambos chegaram á conclusão que “Amor de pai é incondicional! Você é meu filho e eu te amo! Nada além disso tem importância!”.
    Nossa, só eu sei como me senti, o tamanho do alívio. Ouvir da boca dos meus pais que a minha sexualidade não era um problema foi a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer na minha vida. Sei que muitos jovens não têm a sorte que eu tenho. Muitos são açoitados, expulsos, mortos. Sei que a opinião dos meus pais não reflete a opinião da sociedade em geral e não reflete nem mesmo a opinião dos meus tios e primos. Eu sou muito agraciado por ter pais que me amam dessa forma.
    Desde então, só meus pais, duas irmãs mais novas, Ana e a irmã gêmea dela, além do pessoal do Bar do NB, sabem a verdade. Ainda sinto nos meus pais uma pitadinha de desejo de me ver casado com a Ana, tendo filhos e sendo feliz, mas eu sei que isso não vai acontecer, e sei também que eles vão entender.
    Meses atrás bebi demais e peguei um menor na balada, mas são coisas da vida. Tinha muita gente da faculdade lá, mas até hoje não ouvi um comentário sequer, então está tudo numa boa. Ainda não achei um cara legal pra ter um relacionamento sério, mas estou na busca.
    Nunca namorei na vida, mas ainda tenho esperanças de arranjar um marido, adotar filhos e ser feliz numa casa de campo – essa é a minha utopia amorosa.
    Comecei a praticar Kung Fu em junho de 2013, e adquiri a coragem e confiança que me faltavam na vida pra tomar as atitudes necessárias em busca da minha felicidade.
    Bem é isso: eis a minha historinha “Boboca”. Obrigado desde já pela paciência de Jó em ler esse texto infinito.
Paz, irmão.
Foco, força e fé.
Dias de luta, dias de glória.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Abraços, e continue conosco.
contato: ozymandias_91@yahoo.com.br

segunda-feira, 10 de março de 2014

memórias

    A maior parte dos dias das nossas vidas são tão ordinários que dificilmente atribuímos a eles um lugar cativo na nossa memória. Imagino que se fôssemos escrever um livro de memórias, incluiríamos 2% dos dias vividos, em que realmente lembramos alguma coisa. 
    Porém, neste contexto, algumas experiências são tão marcantes que mesmo depois muitas décadas, ainda conseguimos lembrar traços de um acontecimento. No meu caso, quase duas décadas depois, ainda tenho vagos borrões de lembranças que considero minhas primeiras experiências homoeróticas. A primeira e mais antiga aconteceu em uma locadora de vídeo. 
    Na época eu tinha de 4 a 5 anos e gostava de ir com meu pai escolher filmes, mesmo que quase sempre eu acabava escolhendo algum filme dos Cavaleiros do Zodíaco, e mesmo que o já tivesse assistido. No tempo em que meu pai terminava a sua escolha, eu vagava pela locadora, e um dia acabei terminando na área de videos pornô. Um vídeo que acabou sendo objeto da minha admiração por um tempo maior mostrava uma mulher com um grande número de machos ao redor, no que parecia ser um filme do estilogangbang
    Fiquei contemplando todas aquelas pirocas na capa do vídeo e naquele momento estava em êxtase com o tanto de sensações novas, pois era a primeira vez que eu estava vendo um pau adulto duro. Aquela imagem nunca mais me saiu da cabeça, e imagino que ainda hoje eu conseguiria desenhar o que vi naquela capa. 
    A próxima experiência (que eu me lembro) aconteceu quando assisti, na sessão da tarde, ao filme lagoa azul. Lembro de uma cena que o rapazinho desce uma cachoeira nu, e nesta cena é possível ver seu pênis. Por algum motivo a Globo não cortou a cena na época e acabei vendo. Desde então, sempre que a lagoa azul passava de novo na sessão da tarde, eu fazia questão de ver, mas para minha decepção, esta cena já era cortada. 
    Não sei dizer se estas experiências eram acompanhadas de excitação sexual, pois a lembrança que tenho era de curiosidade, majoritariamente. Queria ver detalhes daquele órgão, que mesmo externo, é tão coberto por panos e tabus. Talvez todo o tabu e tensão em torno do órgão causou a minha curiosidade, que pode ter se tornado uma obsessão. 
    Quanto à curiosidade pelo sexo oposto, na mesma época, ela era apenas por seios. Porém, esta curiosidade pelos seios nunca se mostrou nenhum pouco tão intensa quando comparada com o corpo masculino. 
    

    Não tenho a pretensão de fazer conclusões para o meu comportamento homossexual presente baseado na minha curiosidade infantil, mas algumas proposições podem ser interessantes. Primeiramente, será que a exposição ao corpo masculino numa idade muito nova pode ter tido alguma relação com o meu comportamento sexual homossexual como adulto, ou isso aconteceria de qualquer maneira? Será que esta curiosidade em pouca idade sobre o corpo e órgão masculino são comuns entre gays, ou crianças em geral? Pode-se fazer um milhão de perguntas sobre o mesmo assunto para adultos heterossexuais, mas imagino que mesmo com todas as respostas ainda teríamos um resultado inconclusivo sobre o assunto.
    Enfim. A título de conversa, querido e respeitoso participante deste blog, qual a primeira experiência homoerótica de que te recordas?
Um grande abç,
N.B.
#HTML10{background:#eee9dd ;}