Mentira, claro que eu quero. Ser gay tem seu lado bom quando se sabe aproveitar, apesar de toda a turbulência inicial. Mas o título deste texto não é apenas sensacionalismo, pois algumas coisas me chocaram nos últimos dias:
(1) o preço dos ovos de páscoa;
(2) o pastor presidente da Comissão de Direitos Humanos, sentado na bancada da presidência ao lado da figura engraçadíssima de Jair Bolsonaro. Coisa de país sério, claro;
(4) o ibope que a eleição do papa deu. Até eu que sou mais relapso assisti com curiosidade e gostei, pois acho poderia ter sido ser pior. Não tem nada de novo sobre temas polêmicos, de nosso interesse, e ainda assim os católicos mais conservadores estão arrancando os cabelos com esse papa supostamente mais liberal;
(3) o maior choque fica com a quantidade infinita de homens e mulheres que tem se manifestado em um site de reversão de sexualidade através da fé, relatando suas dificuldades na luta contra o mal perverso do homossexualismo. Surpreendentemente, muitos comentários ali também relatam a vitória em cristo, se auto-proclamam ex-homossexuais, mas que recorrentemente, se pegam lutando desesperadamente contra o desejo proibido, seja quando estão sozinhos na frente do pc tentados a ver pornografia de anões gays, ou quando veem algum cara mais bonitinho. Sente o drama!
"Vi esse blog e fiquei muito feliz em saber que tem outras pessoas que, assim como eu, ainda travam essa luta constante, e por isso gostaria de pedir ajuda ao criador do blog para tentarmos entrar em contato com a Associação dos Médicos Católicos da Alemanha para nos informar a respeito do tratamento que eles dizem estar realizando com as pessoas que querem deixar de ser homossexuais. Dizem ser um tratamento baseado não apenas na religião e na psicologia, mas um tratamento mais concreto: “TRATAMENTOS HOMEOPÁTICOS... COM DILUIÇÕES, POR EXEMPLO, DA CHAMADA PLATINA, A PSICOTERAPIA E O ACONSELHAMENTO ESPIRITUAL”. Por favor, me ajude, antes que eu perca minha família (sou casado e tenho uma filha) ou acabe me matando de tanto sofrimento. Faço qualquer loucura pra me livrar de vez dessa doença maldita. Abraço a todos e força nessa luta que não é nada fácil."
"Eu sou um futuro ex-homossexual, pois TENHO CERTEZA de que Cristo vai me ajudar nesta dura batalha contra a homossexualidade, tenho certeza que EU e CRISTO vamos vencer esta batalha, é difícil, mas com muita fé e confiança em Deus, eu posso qualquer coisa! Amém!"
"Nessa noite que passou aconteceu algo que eu fiquei muito triste, eu acordei como se estivesse me masturbado, mas não fiz, fiquei desse jeito pelo sonho homossexual que tive, o que me frustra é que em sonho eu não tenho o total controle e as vezes não consigo evitar e acaba acontecendo. Quando isso acontece, eu geralmente tenho um dia horrível só consigo me sentir como mal durante o dia inteiro, e hoje eu estou assim, estou um pouco baleado. Acabei de sentir vontade de praticar o pecado novamente mas não o fiz, as vezes para evitar me masturbo com pornografia heterossexual ou lésbicas não sei se é certo, mas pelo menos não me sinto tão culpado e não fico triste, foi uma válvula escape q eu encontrei, mas gostaria de nem ao menos me masturbar e me guardar para minha futura esposa."
Depois do que relatei no último texto, e devido aos acontecimentos no circo de nome Brasília, dá vontade de desanimar mesmo. Ou pedir asilo político (se ainda não existir asilo sexual) em algum país mais liberal. Quiçá começar a estocar viagra e pinga, e casar com uma dessas mulheres, as quais jesus ama, mas ninguém as come.
Apesar das coisas que me chocam, e apesar do início enganoso do texto, este texto não é sobre as angústias de viver a homossexualidade. Isso porque o que se vê nos inúmeros blogs de jovens gays são comportamentos e pensamentos extremamente auto-destrutivos, textos depressivos, revolta com o mundo e relatos da dor e da solidão que é viver do jeito que se é.
É interessante, porém, como lá fora, na escola e no trabalho, não se vê os deprimidos que tem inundado a internet. Isso poderia nos levar a pensar que o índice de pessoas deprimidas que usam máscaras no mundo offline pode ser absurdamente alto. Como não são todas as pessoas que tem blogs para deixar seus pensamentos fluírem, se tivessem, talvez estariam ali expondo suas angústias também. Estaríamos vivendo uma epidemia de depressão, ou será que sempre estivemos em epidemia, e essa percepção da depressão generalizada só é possível graças ao compartilhamento anônimo que a internet permite? Talvez, no fundo, todos temos que usar aquela máscara de feliz, e quando se está em casa, na intimidade da cadeira do pc, as nossas angústias acham um escape. É tão difícil imaginar que aquele cara que passa o dia sorrindo e rodeado de pessoas tenha alguma crise dessas, mas quem somos nós para saber se aquilo tudo demanda muito esforço dele para sorrir e ser agradável.
Tem uma coisa legal que eu ouvi há um tempo na aula de sociologia que somos obrigados a assistir para humanizar o engenheiro. Durkheim (um sociólogo) escreveu um livro sobre o suicídio no qual disse que se o cara pertence demais à sociedade, ou se ele não consegue achar seu lugar ali, suas chances de suicídio são mais elevadas. No caso do cara que não acha seu lugar, é intuitivo entender o porquê. Mas o que pertence demais, às vezes pode se sentir pressionado e vigiado, como se cada deslize fosse um fracasso visto ao mundo, e como se fosse cobrado e pressionado demais para continuar a responder expectativas, etc etc. Por isso que, antes de dizer que a vida do cara hétero popular é muito boa, temos que nos colocar no lugar dele e imaginar que ser assim também pode demandar muito esforço, paciência e trazer algum tipo de pressão, e que ele pode ter crises na intimidade do seu ser.
Sabem, senhores, ser otimista é difícil e desgastante demais, e é muito mais fácil falar do que estar em sua pele, sentindo suas angústias que justificam o sentimento de impotência diante das circunstâncias, muitas delas relacionadas ao fato de se sentir atraído pelo mesmo sexo. Podemos pensar que é exatamente isso que nos traz solidão e sofrimento. Mas também poderia ser uma obesidade exagerada, um rosto não muito apresentável, a postura, a personalidade, ou até mesmo a falta de habilidade em conduzir uma conversa, que necessariamente afastam pessoas. São variáveis demais para culpar exclusivamente a sexualidade pela solidão. Mas eu divago.
Ser otimista é o exercício de viver, pois nada de bom na vida vem sem trabalho e esforço, e o desânimo que nos bate às vezes é o reflexo do cansaço em ser otimista, exemplificado pelos gays enrustidos dos comentários acima. Lendo estes e muitos outros comentários, eu, particularmente, fiquei dividido entre compaixão e os risos. Compaixão porque talvez eles sofram mais do que nós por problemas comuns a todos os gays, como o medo da rejeição, as piadas, etc, mas principalmente, e diferentemente de nós, por não estarem satisfeitos consigo e tentarem, de todas as formas, evitar os sentimentos impuros. Risos porque eu sou mau, mesmo, pois querer mudar isso é muita inocência.
Não vou dizer que agir dessa forma e tentar mudar os tratá tristeza, ou que eles serão infelizes para sempre, ou que vão ser frustrados sexualmente e não vão viver suas vidas. Claro que não, porque isso é leviano. Vou explicar.
Cada vez mais me convenço de que a atração pelo mesmo sexo é universal, podendo conviver com a atração pelo sexo oposto em diferentes níveis. O que estes caras estão fazendo é tentar se ajustar ao que é esperado deles perante as pessoas próximas. Isso traz sofrimento pela constante supressão dos desejos, mas também traz uma certa satisfação pelo sentimento de pertencimento, que pode ou não pesar mais que a angústia da negação e anulá-la. Do nosso lado, fazemos o contrário: abraçamos os nossos desejos e isso compromete o nosso sentimento de pertencimento perante nossos próximos. Se ter experiências gays é melhor ou pior do que suprimir esses sentimentos e tentar levar uma vida de hétero, só a vida dirá.
De qualquer forma, a sexualidade não pode justificar a rejeição de alguém perante seus próximos, pois isso é reflexo do baixo nível de educação do Brasil. Porém, dadas as circunstâncias de preconceito e críticas ao relacionamento gay, a decisão de seguir vivendo como hétero que rejeita seus desejos homossexuais é compreensível, mas buscar pelo fim desses desejos é perda de tempo, ainda mais se baseando em espiritualidade para isso. Uma paulada na cabeça teria mais chance de funcionar. Talvez a pior parte em brincar de ser hétero é que isso não contribui para nenhuma mudança mais drástica no cenário da sexualidade no país.
Também, é claro que podemos chegar lá na frente e perceber que fizemos uma escolha errada, como por exemplo, o cara casado do comentário acima, que não parece muito recompensado pela sua decisão em ter se casado.
Este blog, a internet e infinitas campanhas de conscientização estão aí para quem quiser conhecer mais sobre sexualidade, e assim chegar à conclusão de que esses desejos nunca vão passar, são comuns e são naturais, pois são inerentes a todos humanos.
Mas isso tudo não é motivo para deixarmos de ser otimistas, pois a tendência do nível de informação das pessoas é sempre melhorar, e o processamento das informações leva à questionamentos e a consequente ruptura do tradicional.
Sabem, senhores, acho que a gente tem muita sorte por sermos gays e esclarecidos o suficiente para termos consciência de que isto tudo é normal, e por sabermos tomar nossas decisões de forma mais confiável do que esperar por um milagre. Pelo menos tivemos tempo de chegar a essa conclusão, e temos a chance de estarmos em paz conosco e vivermos mais leves, enquanto o pessoal do "não quero ser gay" vai continuar dando soco em ponta de faca. Estar em paz consigo já é motivo para ser otimista, e pensar que amanhã, quem sabe, de leve na academia, conheceremos o nosso marido que tanto esperamos.

Temos motivos para sermos otimistas porque, mesmo que o pastor esteja na presidência da comissão, ele enfrenta mais e mais dificuldade em se manter onde está. O governo, inclusive, está preocupado com o tamanho do erro político que cometeu. Quantas manifestações em favor dos direitos humanos e homossexuais estão acontecendo! Sejamos otimistas porque temos representantes ativos (e passivos) no circo também! Dá até vontade de curtir Jean Wyllys (com dois éles e dois ípsilons mesmo?) no Facebook.
Ou otimistas porque o papa chegou abalando os católicos conservadores, e por mínima que seja, é uma mudança! Otimistas porque, mesmo que os ovos de páscoa estejam absurdamente caros, ainda podemos comprar uma caixa de bombons, que é chocolate também!
E por fim, sejamos otimistas porque mesmo quando não parece, podemos achar a beleza da vida em todos os lugares, e também porque ser otimista nos faz viver melhor, e viver mais!
Um bom fds e um grande abç
N.B.